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    Tricolor desde antes de nascer, Bruno Carril é advogado pós-graduado em Direito Desportivo e especializado em Leis de Incentivo ao Esporte, rockeiro de berço, sócio contribuinte e fundador do MR21
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em foco • Por Bruno Carril • 13 mai 2016
Oportunidades perdidas (por Bruno Carril - “Esse negócio chamado futebol”)

Há exatos 97 anos, em 11 de maio de 1919, o Fluminense Football Club inaugurou o Estádio das Laranjeiras, o primeiro estádio construído no Brasil para atividades esportivas, local que serviu não apenas ao próprio clube, sendo cenário de conquistas históricas e terra fértil para o nascimento de alguns dos maiores jogadores da história do futebol, como serviu de palco para a seleção brasileira de futebol, em sua primeira partida, em seu primeiro título, servindo como berço e primeira casa do futebol brasileiro.  

Construído integralmente com investimento e esforços de seus sócios, atletas e torcedores, e com capacidade para 25.000 pessoas no ano de 1922, o estádio foi durante anos o maior da América Latina, sendo o grande trunfo do Brasil para sediar os Jogos Olímpicos Latino Americanos, evento precursor dos Jogos Pan-Americanos.

Hoje, dia 13 de maio de 2016, o estádio das Laranjeiras encontra-se em avançada situação de abandono, com as arquibancadas superiores condenadas, problemas estruturais sérios, configurando-se como ruínas que guardam um pouco da história e da grandeza do Império Tricolor naqueles primeiros anos do século XX, mas que leva em sua alma o espírito vencedor, vanguardista, inovador e da excelência que caracterizam o Fluminense como a maior referência esportiva, social e cultural de sua época.

Não deveria ser assim. A grandeza de um clube é medida pela capacidade que possui de adaptar-se aos novos tempos, sem deixar de lado suas tradições e sua história. O sucateamento de um equipamento de tamanha importância esportiva e histórica serve como evidência da falta de cuidado e visão que as últimas gestões tiveram com o clube e da forma como o clube acabou perdendo suas mais basilares referências com o avançar dos anos.

Não precisava, sequer, ser dessa forma. Foram muitas as oportunidades que o clube teve, nos últimos anos, de proceder com uma reforma completa em sua estrutura, tornando o histórico Estádio das Laranjeiras muito mais do que uma peça de museu abandonada ao tempo, mas um ativo do clube, capaz de gerar uma mudança de patamar na estrutura e organização à disposição da entidade.

No dia 24 de agosto de 2002, o Rio de Janeiro foi escolhido como sede dos XV Jogos Pan-Americanos, que ocorreriam no ano de 2007. Tal episódio se consolidou como o marco inicial de um período de enorme investimento recebido pelo Brasil, como um todo, e especialmente pela cidade do Rio de Janeiro, posteriormente escolhida para sediar eventos ainda maiores e mais relevantes.

Logo nos primeiros anos de adequação para os Jogos Pan-Americanos, a cidade do Rio de Janeiro transformou-se em no alvo principal de muitos investimentos, principalmente na área desportiva, em um contexto histórico que colocava o país em um momento de ampla expansão econômica.

O evento trouxe investimentos estimados em 4 bilhões de dólares, investidos, principalmente, na construção e reforma direta de equipamentos esportivos na cidade.

O Fluminense Football Club, não obstante ao seu histórico de apoio ao desporto nacional, foi completamente incapaz de se inserir no contexto esportivo da cidade do Rio de Janeiro e colocar-se na posição de beneficiado das iniciativas vindouras. Enquanto alguns clubes aproveitaram a oportunidade para, no mínimo, equipar os seus departamentos de esportes olímpicos, o Fluminense permaneceu inerte e perdeu a primeira grande oportunidade de operar reformas estruturais necessárias.

Tivemos, entretanto, uma segunda chance, ainda maior e mais preponderante do que a anterior. No dia 30 de outubro de 2007, o país foi escolhido como sede da Copa do Mundo de 2014 e desde o primeiro dia era de conhecimento geral que o Rio de Janeiro seria a sede mais relevante, com o principal estádio do evento, o Maracanã.

A Copa do Mundo recebeu investimentos estimados na casa dos, pasmem, 33 bilhões de reais, sendo o evento mais caro da história do futebol mundial. Grande parte desse valor foi direcionado para a montagem de infraestrutura necessária para recepção e treinamento das seleções que disputariam o torneio.

Todavia, uma vez mais, o Fluminense não teve a capacidade de aproveitar essa maravilhosa oportunidade para direcionar uma pequena parcela desses 33 bilhões de reais para a reforma de um estádio que foi o primeiro palco da seleção brasileira de futebol. Um estádio localizado na Zona Sul do Rio de Janeiro e que serviria perfeitamente para treinamento e preparação de seleções que tivessem partidas designadas para a cidade.

No dia 10 de setembro de 2012, o jornal “O Globo”, noticiou que os quatro grandes clubes do Rio de Janeiro haviam recebido terrenos doados pela Prefeitura do Rio de Janeiro para montagem de Centro de Treinamento que seria utilizado para formar estrutura de treinamento para as seleções que disputariam a Copa do Mundo. A previsão de conclusão das obras, inicialmente, era de oito meses, servindo até mesmo para a Copa das Confederações.

Sabemos que as promessas passaram longe de serem cumpridas, mas fica a evidência da necessidade que a organização da Copa do Mundo possuía, à época, na estruturação dos equipamentos esportivos da cidade.

O Fluminense, com um estádio pronto para receber investimentos que tornassem a sua modernização viável perdeu, mais uma vez, uma oportunidade de ouro de reativar o seu velho e histórico estádio e transformá-lo em importante fonte de renda e fortalecimento do clube, como um todo.

Enquanto isso, Internacional, Grêmio, Atlético-PR, Corinthians, Palmeiras, Cruzeiro e Atlético-MG, além de clubes pequenos do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia entre tantos outros estados, saíram da Copa do Mundo com estádios novos e reformados. O Rio de Janeiro, como um todo, teve como único legado uma reforma do Maracanã que, para muitos, acabou destruindo o velho espírito do estádio e um contrato leonino com a empresa escolhida para administrá-lo.

Tudo pela ausência de iniciativa dos presidentes das entidades esportivas cariocas, mais uma vez, completamente incapazes e sem a competência mínima necessária para transformar uma oportunidade em uma realização.

Haveria uma terceira oportunidade.

No dia 02 de outubro de 2009, o Rio de Janeiro foi escolhido sede dos Jogos Olímpicos 2016. Seria o maior e mais importante de todos os eventos. O ápice de um calendário de eventos esportivos que incluiu inúmeros mundiais de modalidades diversas e os jogos mundiais militares, sempre com investimentos suntuosos.

Agendada para ser iniciada em agosto do corrente ano, até o momento, os custos do novo evento aproximam-se dos 40 bilhões de reais, sem que estejam fechados. No projeto, um gama de investimentos em infraestrutura, transportes e novos equipamentos esportivos para a cidade.

Lamentavelmente, nem um centavo chegará às Laranjeiras. E não foi por falta de oportunidade. Os eventos que serão abaixo descritos se constituem como uma das mais vergonhosas atuações da dupla Horcades/Siemsen, enquanto mandatários do Fluminense Football Club.

No ano de 2009, logo após o anúncio dos Jogos Olímpicos, o Comitê Olímpico Brasileiro manifestou a necessidade de inclusão de um estádio próprio para a disputa da modalidade Rugby, esporte que não fazia parte do programa olímpico no ano de 2012 e não havia sido inicialmente planejado no programa olímpico. Naquela altura, os organizadores buscavam um estádio menor, mas com a mesma estrutura de um estádio de futebol, para receber tais partidas.

Investimento direto no equipamento, sob o simples custo de cessão para os jogos olímpicos. Ora, existiria equipamento mais perfeito para tal finalidade que o campo das Laranjeiras? Um estádio modernizado, mas cheio de história, pronto para receber entre 15 e 20 mil pessoas, no coração da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Contudo, novamente, o Fluminense sequer foi capaz de candidatar-se ao recebimento de tais investimentos. Os estádios cogitados foram São Januário e, atenção, Moça Bonita (!!!). Percebam o absurdo da situação. O Bangu teve muito mais visão, e quase conseguiu emplacar seu estádio nas Olimpíadas, que o gigante centenário e berço do desporto nacional Fluminense Football Club.

Carlos Arthur Nuzman passou a defender abertamente a “reconstrução” do estádio de São Januário, feito que chegou a resultar, até mesmo, na assinatura de um acordo junto ao COB para o estádio ser a sede olímpica do Rugby nas Olimpíadas de 2016. O Vasco teria um estádio novo, completamente reformado, sem gastar um único centavo por isso. E ainda teria o orgulho de dizer que sua sede fez parte dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Após muitas discussões, no ano de 2012, o C.R. Vasco da Gama recebeu a incumbência de fornecer alguns documentos obrigatórios para que as intervenções e obras necessárias pudessem, finalmente, serem iniciadas. Ocorre que o Clube da Colina não entregou a documentação necessária para assegurar que as disputas ocorressem em São Januário, dentro do prazo designado e acabou sendo excluído do programa olímpico.

Uma nova chance para o Fluminense?

Infelizmente, não. Rubens Lopes, ex-presidente do Bangu, e agora presidente da Federação do Rio de Janeiro, adiantou-se a colocar o estádio de Moça Bonita à disposição do COB, hipótese que chegou a ser seriamente considerada pela prefeitura do Rio de Janeiro.

E o Fluminense, em meio à gestão Peter Siemsen, assim como anteriormente Roberto Horcades, permaneceu inerte. Não realizou uma movimentação sequer no sentido de levar esses investimentos para as Laranjeiras, de recuperar um patrimônio histórico do clube, da cidade do Rio de Janeiro e do Brasil.

Por fim, no ano seguinte, o Comitê Olímpico Brasileiro e o Comitê Olímpico Internacional bateram o martelo, pela construção do estádio de Rugby em Deodoro. E assim, o Fluminense deixou escapar aquela que seria a sua melhor e derradeira oportunidade de transformar toda a história do estádio das Laranjeiras em modernidade, criando um dos mais relevantes ativos patrimoniais para o clube.

Atualmente, a discussão acerca da necessidade e importância de um estádio para independência e fortalecimento financeiro do clube ganhou as páginas de jornal através de declarações estapafúrdias e eleitoreiras, que sequer avaliam as reais necessidades do clube, e apenas servem ao propósito de iludir o torcedor tricolor em troca de seu voto.

É inequívoco, entretanto, que o próximo presidente do Fluminense encontrará como um de seus principais desafios a necessidade de enfrentamento dos problemas estruturais do clube, que nos torna nômades ao menor sinal de indisponibilidade do Maracanã.

É preciso, entretanto, que a questão seja tratada com a seriedade que se exige, e não de forma bravateira e ilusória, com promessas inviáveis e completamente afastadas da realidade do clube e de suas necessidades, desenhada sob promessas eleitoreiras de construção de mega estádios que sequer atenderiam a nossa demanda real em locais inviáveis ou inalcançáveis. 

Vivemos em uma cidade que passa por um momento de grande especulação e valorização territorial e uma crise política e econômica cuja luz ao fim do túnel ainda parece-nos invisível. Não há terrenos à disposição para construção de estádios para 50 ou 60 mil espectadores e a experiência de construção de estádios com acesso minimamente dificultado, como o Engenhão, foi extremamente negativa quanto à participação e envolvimento dos torcedores.

Aliás, é curioso ver a questão do estádio sendo vinculada justamente por aqueles que deixaram tantas oportunidades de tê-lo passarem diante de seus olhos, sem nada fazerem para usá-las.

O Fluminense precisa olhar para dentro de sua própria casa e Investir naquilo que lhe pertence, que carrega a sua história.

O próximo presidente do Fluminense Football Club precisa assumir para si a responsabilidade de ao menos iniciar os estudos necessários para a reforma das Laranjeiras, sua modernização e sua expansão para atender públicos de 15 a 20 mil pessoas.

De forma concomitante, o Fluminense deve envolver-se de forma direta na administração do Maracanã ao final dos jogos olímpicos e abertura dessa nova fase, ainda que aliado ao Flamengo em um modelo que em muito lembra a administração do Estádio San Siro (ou Giuseppe Meazza), por Inter de Milão e Milan.

Assim, finalmente poderemos ter o nosso estádio para atendimento das demandas menores, como partidas do Campeonato Estadual, jogos iniciais da Copa do Brasil ou mesmo partidas menos relevantes pelo Campeonato Brasileiro e teremos o Maracanã para jogos grandes, clássicos, partidas pela Libertadores e afins.

Reduziremos a nossa dependência e nos fortaleceremos enquanto entidade esportiva, dentro e fora de campo.

O caminho não será simples. Mas precisa ser seguido. Aparecerão mil dificuldades e precisaremos enfrentar mil e um problemas. Já perdemos oportunidades demais e estas, infelizmente, não voltam. Então precisamos nós mesmos sermos capazes de fazer com que isso possa acontecer.

 

 

 

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