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    Tricolor desde antes de nascer, Bruno Carril é advogado pós-graduado em Direito Desportivo e especializado em Leis de Incentivo ao Esporte, rockeiro de berço, sócio contribuinte e fundador do MR21
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em foco • Por Bruno Carril • 02 jun 2016
Debatendo o futuro (por Bruno Carril - “Esse negócio chamado futebol”)

Em coluna publicada neste espaço, no último dia 19 de maio, nos debruçamos sobre uma necessária análise da evolução da dívida do Fluminense Football Club e do desempenho da atual gestão à frente das finanças do clube, demonstrando, com a clareza e solidez dos dados apresentados, um elogiável controle do impacto desses débitos no dia a dia da instituição, mas o completo fracasso na tentativa de impedir o seu crescimento, não obstante aos benefícios decorrentes de um impressionante aumento das receitas perpetradas nesse período.  

A posição defendida em nossa coluna anterior foi amplamente corroborada por Amir Somoggi, consultor de marketing e gestão esportiva, em palestra realizada na noite do dia 31 de maio, no Fluminense, após a apresentação da mais completa e ampla análise específica das finanças do clube realizada nos últimos anos.

Amir Somoggi, aos desavisados de plantão, é administrador de empresas formado pela ESPM, especializado em gestão esportiva pela FGV e pós-graduado em marketing esportivo pela Universidade de Barcelona. Trabalha há quase 20 anos na área de marketing, sendo os últimos 15 anos totalmente dedicados a projetos de consultoria em marketing, gestão e planejamento estratégico para clubes, patrocinadores e investidores do esporte. Foi responsável, na última década, por examinar e avaliar o mercado brasileiro de clubes de futebol com a produção de centenas de estudos sobre as finanças e o marketing dos clubes brasileiros e internacionais. É colunista do jornal esportivo Lance, da Rádio CBN e teve seus estudos publicados por outros veículos de comunicação, como o GE.com, ESPN, revista Exame e inúmeras publicações específicas. É, portanto, uma referência nacional na análise do mercado brasileiro de clubes de futebol. 

Infelizmente, existem pessoas e grupos que, vergonhosamente, preferem seguir com uma postura agressiva perante o interlocutor ao invés de dedicarem-se ao debate do teor das proposições expostas, utilizando-se do velho sofisma conhecido como Argumentum ad Hominem, em razão da mais completa e absoluta falta de capacidade de debater o conteúdo exposto, como se os desesperados ataques à pessoa fossem capazes de desqualificar as questões apresentadas.

Deveriam, pois, estar mais preocupados em debater o clube e soluções para o seu engrandecimento em detrimento de aprovação de títulos a sócios ou caçar velhas notícias com o patético intuito de atingir pessoas, medida que demonstra desespero e parece ter se tornado um padrão. Resta saber até quando ataques pessoais serão as respostas para os sólidos questionamentos formulados. 

Voltando-se ao debate da situação financeira do clube, a conclusão, seguindo a lógica anteriormente defendida neste espaço, indicou que o desafio de reverter o cenário financeiro do futebol brasileiro, como um todo, e do Fluminense, especificamente, é enorme e exigirá muito do próximo presidente da instituição.

O excepcional estudo apresentado, baseado nos balanços publicados pelo próprio clube, embora apontem uma significativa evolução de receitas, sendo o primeiro resultado anual positivo nos últimos 13 anos, não apaga o sinal de alerta. Isso porque o tricolor fechou 2015 com superávit de quase R$ 32 milhões, impulsionado, principalmente, pelos descontos de R$ 71,3 milhões proporcionados pelo PROFUT e por um aumento de 500% nas receitas decorrentes da venda de atletas. Sem a ajuda do governo, o resultado do ano seria um prejuízo de R$ 40 milhões. Sem a sangria dos jovens talentos de Xerem, sequer teríamos condições de fechar o ano com números positivos. Nos últimos cinco anos o Fluminense acumulou perdas de R$ 16 milhões e os déficits acumulados nos últimos 13 anos são de R$ 307 milhões. Números sólidos, indiscutíveis, e que evidenciam um completo fracasso na gestão financeira do clube das últimas duas gestões.

“Temos que observar que a dívida fiscal caiu, mas a dívida total, que inclui todo tipo de pendência, aumentou de R$ 439 milhões, em 2014, para R$ 461 milhões, em 2015. E, quando se deduz a dívida fiscal e a geral não cai é porque na realidade a dívida aumentou”, explicou Somoggi.

Se tal condição não fosse suficientemente preocupante, Somoggi relembrou que a dívida fiscal vai ser corrigida pela Selic, de acordo com reajustes do Profut, e nenhum clube cresce nessa proporção. E, caso não seja possível honrar o compromisso com o refinanciamento, o clube é excluído do benefício e tem que devolver os R$ 71 milhões que foram utilizados, por hora, para apresentação de um balancete positivo, um belo cabo eleitoral neste ano.

Trata-se de um inequívoco problema que deverá ser enfrentado pelo próximo presidente e que causa profunda preocupação, desde já, a nós do Movimento de Renovação 21 de Julho, o MR21. Isso porque o clube não terá, nos próximos anos, as receitas decorrentes da venda de atletas como tivemos no ano passado. A receita decorrente da adesão ao PROFUT se tornará dívida de pagamento obrigatório, aumentando as despesas, que terão o seu balanço prejudicado, ainda em razão da assinatura de longos contratos com a televisão (até o ano de 2024), fornecedores de material esportivo (no caso, a Dry World, que sequer cumpre o fluxo normal de pagamento) e contratos longos com alguns atletas, além de circunstâncias desconhecidas como a utilização do Maracanã e a evolução do programa de sócio torcedor sem estádio.

É uma situação extremamente preocupante, e que o torcedor tricolor precisa começar a enfrentar de imediato, sob pena de ser pego de surpresa no futuro, enganado por ficções contábeis que, nem de longe, demonstram a gravidade da situação financeira do clube.

Outro ponto amplamente debatido, qual seja, o custo do futebol, também precisa ser melhor analisado por clubes que buscam equilíbrio de receitas. O Fluminense, que no ano de 2015 rompeu a parceria com a Unimed e ficou com a gestão própria do seu futebol após 13 anos, teve no ano passado um custo de R$ 130 milhões com o futebol contra uma receita de R$ 180 milhões. Vale lembrar que a transferência de jogadores foi responsável por R$ 36,5 milhões, contra R$ 5,7 milhões (2014) e 14,4 milhões (2013), apresentando um crescimento de 5% para 20% do total de receitas. Conforme ressaltado por Somoggi, “É um resultado a ser comemorado, mas, ao mesmo tempo, a preocupar. Nota-se que foi um ano atípico. Se não houvesse a venda a receita seria menor do que o custo. É preciso seguir atento, pois é uma receita pontual e não fixa”.

Particularmente, questionamos se a venda de atletas sem a sua utilização direta entre os profissionais é um caminho, de fato, a ser comemorado. O que se torna evidente, entretanto, é que foi o caminho encontrado pela diretoria para tentar esconder da torcida tricolor o caos financeiro no qual o clube está mergulhado, sem qualquer preocupação com a perenidade do clube ou com as condições que deverão ser enfrentadas pela próxima gestão.

Outro ponto extremamente interessante destacado por Amir Somoggi foi o investimento realizado pelo clube na formação de jogadores. A imagem do Fluminense como um clube formador de talentos não é traduzida nos valores que o clube gasta em seu futebol. Em 2015, foram investidos R$ 4,9 milhões na base (segundo declaração existente no balancete do clube) contra R$ 78,5 milhões em contratações. E, ainda assim, os resultados foram pífios, o que apenas denota que se gasta muito e mal no departamento de futebol profissional.

“O São Paulo, por exemplo, investiu em 2015 R$ 41 milhões na formação contra R$ 59 milhões na contratação. No Corinthians, foi até mais dinheiro para a base: R$ 41 milhões contra R$ 40 milhões para o profissional. No Grêmio foram destinados R$ 25 milhões para a formação e R$ 42 milhões para o time de cima”, os três clubes, mesmo com investimentos menores no futebol e maiores em suas bases, tiveram desempenhos melhores que o Fluminense e disputaram a Taça Libertadores da América, o que nos leva à duas conclusões básicas: I – que o clube poderia ter feito investimentos menores e mais inteligentes no departamento de futebol, obtendo resultados consideravelmente superiores e II – que o clube poderia ter um desempenho financeiro muito superior ao apresentado, independentemente da venda de atletas ou dos benefícios decorrentes do PROFUT.  

Ao debater mecanismos de crescimento das receitas do clube e da expansão da marca, a presença local, nacional e internacional do Fluminense foi outro ponto que mereceu grande destaque na análise do consultor. Na comparação da presença do clube nas redes sociais, o maior canal de mídia da atualidade, o tricolor está bem atrás de seus concorrentes. Tomando em consideração o número de fãs brasileiros no Facebook, o Fluminense aparece atrás de todos os grandes clubes do Rio, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Com 1,1 milhão de fãs, o clube ganha apenas do Botafogo.

O mesmo problema pode ser observado na questão da divisão das cotas de televisão, na qual a posição do Fluminense no ranking de receitas de transmissão de direitos de TV repete o comportamento visto nas redes sociais. O clube fica atrás de todos os paulistas, mineiros, gaúchos e cariocas, à exceção do Botafogo. O Cruzeiro lidera o ranking de 2015 com R$ 133 milhões, seguido por Flamengo e Corinthians, respectivamente com R$ 128 milhões e R$ 122 milhões. O clube aparece no 11º lugar, com um total de R$ 67 milhões.

É preciso ressaltar, pois, que toda a análise financeira apresentada foi fundamentada em números, dados e informações oficiais sobre o clube, cabendo ao palestrante, assim como coube em oportunidade anterior a este colunista, o papel de somente organizar e demonstrar o significado de cada uma dessas informações, para que o torcedor tricolor tenha o conhecimento específico da atual situação do clube, uma vez que a atual gestão parece mais preocupada em evitar que tais dados cheguem ao conhecimento da torcida tricolor e dos sócios do clube.   

Como bem lembrou Pedro Trengrouse, candidato à presidência do Fluminense e intermediador da palestra, “É importante discutir o Fluminense em alto nível. Temos que pensar grande. Qualquer um que vier a se tornar presidente pode fazer uso desses materiais que apontam para um grande potencial de desenvolvimento do Fluminense”.

Esta é, pois, a postura que esperamos de todos os candidatos ao cargo máximo de dirigente do clube. O Fluminense não precisa, nesse momento, de debates fundamentados em ataques pessoais, em desqualificações fundamentadas em experiências profissionais anteriores, seja por candidatos ou palestrantes, ou pelo acobertamento de informações relevantes nesse processo, como se ataques infantis e desarrazoados tivessem o condão de desclassificar os muitos questionamentos formulados, e devidamente fundamentados nos dados apresentados.

Amir Somoggi não apenas é pessoa habilitada a falar sobre as finanças do clube, como é um dos mais qualificados profissionais existentes no mercado para tal função. Segundo a campanha do candidato Pedro Trengrouse, será apenas o primeiro, dentre muitos nomes expressivos do cenário desportivo nacional que serão convidados para falar sobre nosso clube, apontando acertos, erros e, sobretudo, soluções. Espero, profundamente, que na próxima oportunidade possamos contar com representantes de outros grupos políticos do clube ou, quem sabe, até outros pré-candidatos, para que possamos discutir e debater o Fluminense de forma mais ampla, específica, com os esclarecimentos devidos, e com as soluções necessárias.

Não adianta não se dispor ao debate e depois insistir em ataques infantis por meio de redes sociais. Isso apenas evidencia o medo de expor a incapacidade de debate e a ausência de um plano sólido de gestão aos sócios e torcedores.

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