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em foco • Por Bruno Carril • 13 jul 2016
STK Samorin: gol de placa ou bola fora? (por Bruno Carril - “Esse negócio chamado futebol”)

Criticada por muitos, exaltada por outros. A proposta de compra do clube STK Samorin pelo Fluminense ganhou as páginas dos jornais e ocupou discussões nas redes sociais e dentro do clube. Em breve, a medida será submetida ao Conselho Deliberativo, a quem caberá decidir pela aquisição (ou não) do time eslovaco.

Indiscutivelmente, a questão vem sendo abordada de forma inadequada. Conceitos rasos e pouco conhecimento do projeto se tornaram comuns e muitos torcedores sequer sabem o que estão defendendo ou criticando. Infelizmente, em ano eleitoral e com o debate político imperando no clube, o que vale é assumir uma posição condizente com o seu grupo de simpatia, sem importar-se com os detalhes que tornam a questão essencialmente positiva ou negativa.

É nosso papel, portanto, buscar mais informações e pensar no que, de fato, é o melhor para o Fluminense, sem os vícios inerentes à utilização do projeto como plataforma política, ou à crítica vazia. Evidentemente, não nos furtaremos de expressar nossa opinião. Mas o essencial é que cada torcedor do Fluminense tenha as informações necessárias, para que possa chegar à sua própria conclusão.

 

O Projeto

Segundo reportagem publicada no GloboEsporte.com e também no jornal O GLOBO, trata-se de um projeto-modelo para o desenvolvimento de uma filial do Fluminense Football Club fora do Brasil, com a finalidade básica de possibilitar uma expansão, internacionalização e exposição da marca, associada a uma aproximação do futebol europeu e um desenvolvimento das divisões de base do clube.

O projeto foi dividido em três fases, sendo a primeira uma parceria simples, para colocação de atletas no mercado Europeu. Posteriormente, adotou-se uma formatação de maior controle, influência e poder de decisão no clube eslovaco, até chegarmos à fase atual, na qual se discute a compra e o controle quase absoluto do clube eslovaco pelo Fluminense.

Trata-se, pois, de um projeto conceitualmente interessante, dentro de um contexto onde as atividades desportivas no mundo se tornam a cada dia mais globalizadas, principalmente com relação ao futebol. Uma forma nova de enxergar o grande negócio que o esporte se tornou, tentando inserir o Fluminense nesta nova realidade. É preciso cuidado, entretanto, para que boas ideias não se percam na tentativa de colocá-las em prática. A pressa e o desespero em transformar um bom projeto em cabo eleitoral imediato ou a opção por atalhos que acabam por acarretar em absoluto desvio de seus próprios objetivos podem direcionar o projeto ao fracasso. E, neste caso, o maior prejudicado não serão os que tomaram decisões erradas neste momento, mas o próprio Fluminense Football Club. 

 

- STK Samorin e o Futebol Eslovaco

O STK Samorin foi fundado no dia 01 de junho de 1914, na cidade de Samorin, então localizada na Thecoslovaquia, atualmente Eslováquia, quase na divisa com a Áustria. Em seus mais de 100 anos de história, jamais venceu um torneio oficial de primeira divisão. Suas conquistas se resumem a campeonatos regionais nos anos de 1929/1930 e, as últimas vitórias, nos anos de 1964/65/66.

Desde 1945, o Samorin disputa campeonatos de divisões inferiores, e jamais obteve qualquer resultado relevante ao ponto de possibilitar participações em campeonatos europeus. Em termos de estrutura, o clube dispõe de Centro de Treinamento, com categorias de base, e um pequeno estádio para 1.945 pessoas.

Se o clube não possui grande representatividade no futebol local, melhor sorte não cabe à seleção eslovaca no contexto do futebol mundial. Seus grandes feitos foram, até hoje, a obtenção de classificação para as oitavas de final da Copa do Mundo de 2010, em sua única participação na história do torneio e resultado semelhante na Eurocopa disputada este ano, na França, em sua estreia no certame. Ocupa, atualmente, a 32ª posição no Ranking da Fifa. Seu mais conhecido e único grande jogador é Hamsik, principal nome do Napoli, tradicional time italiano.

O futebol eslovaco, por sua vez, possui respeito ainda menor no continente europeu. O Campeonato local é disputado por apenas 12 clubes. Destacam-se o Slovan Bratislava e o MSK Zilina, maiores vencedores do torneio. A divisão principal ocupa apenas a 31ª posição no coeficiente da UEFA, atrás dos não menos desconhecidos campeonatos do Cazaquistão, Azerbaijão e Bielorrússia, ao lado do torneio deLiechtenstein. O clube mais bem classificado no Ranking da UEFA, o Slovan Bratislava, ocupa uma nada honrosa 178º posição. Cabe ao mesmo clube o melhor resultado continental obtido, qual seja, a vitória na Taça das Taças, ainda como um clube Tchecoslovaco. Como time eslovaco, o melhor desempenho foi uma 3ª rodada das qualificatórias para a UEFA Champion League.

Este é o contexto escolhido pelo Fluminense Football Club para sua inserção no mercado europeu e desenvolvimento de suas divisões de base. Observados os fatos anteriormente expostos, impõem-se, inicialmente, questionamentos quanto a validade de um investimento nas condições descritas.

Será que, de alguma forma, apostar em campeonato de nível tão baixo, a segunda divisão de um campeonato cujo torneio principal ocupa apenas a 31ª posição no ranking de torneios europeus poderá render frutos que compensem os investimentos que serão realizados, não apenas financeiro, mas também quanto à imagem do clube? Será que existem elementos sólidos que justifiquem tal aposta?

Independentemente das respostas aos questionamentos acima formulados, e considerando o histórico do país no futebol e mesmo a sua posição no mercado europeu, parece-nos uma questão bem mais complexa do que denota a simplicidade com a qual o projeto vem sendo defendido nas redes sociais.

Analisando algumas justificativas, percebemos que a escolha da Eslováquia para base de um projeto tão interessante encontra justificativa em sua boa localização, bastante centralizada, próxima de grandes centros, como República Tcheca, Hungria, Ucrânia, Áustria, Itália e Alemanha.

Trata-se, pois, de uma desculpa inadequada, considerando que, em verdade, o continente europeu é o mais bem interligado do mundo, sendo certo que não existiria qualquer prejuízo na execução de tal plano em qualquer dos demais países do centro-europeu, destacando-se que outras bases poderiam atrair uma atenção maior, em razão de sua relevância, ou da irrelevância da Eslováquia, neste contexto.

Outro fator importante destacado é a ausência de controle de estrangeiros na liga local, feito que estaria agregado ao fato de ser a Eslováquia um país de baixo custo. Mais uma vez, entendemos tratar-se de uma explicação questionável. Cidades interioranas de Portugal, por exemplo, poderiam oferecer as mesmas condições, por custos semelhantes e com muito mais visibilidade em um centro futebolístico consideravelmente mais relevante que a Eslováquia.

E, ainda que considerássemos a Eslováquia o país mais barato do continente europeu, não podemos compactuar com uma visão de redução de custos que possa comprometer o sucesso da empreitada. É um típico caso em que resta evidente que não fazer é melhor do que fazer mal feito.

Logo, embora o projeto seja muito bem fundamentado, e conceitualmente perfeito, a execução do mesmo nos parece equivocada em seu nascedouro com a escolha do local de execução. O clube parece optar por deixar de lado questões que são essenciais para o sucesso da empreitada, apenas para vê-la em prática, sem importar-se com o fato de que tais erros podem acabar por condenar todo o investimento realizado.

Isso porque, conforme ficará demonstrado, as condições expostas não parecem suficientes para permitir que o clube atinja os objetivos traçados.

 

- Os Objetivos

Segundo o Coordenador das Divisões de base do clube, Marcelo Teixeira, idealizador do projeto, o plano é fundamentado, basicamente, na necessidade de desenvolvimento das categorias de base do clube dentro de um modelo europeu, com uma aproximação junto à UEFA e à Associação de Clubes Europeus, inserindo atletas de nossas categorias de base nesse mercado e, finalmente, possibilitando a exposição e internacionalização da marca do Fluminense na Europa.

Novamente, trata-se de objetivos elogiáveis e necessários para o nosso futebol e que demonstram que os ideais traçados buscam o engrandecimento do clube em um contexto onde as atividades esportivas se tornam negócios e precisam crescer e se desenvolver como empresa.

Todavia, uma análise fria, considerando todas as variáveis e características do mercado consumidor alvo de tais investimentos, acaba por gerar inúmeros questionamentos quanto à capacidade de consecução de tais objetivos que, infelizmente, parecem distantes em razão dos caminhos escolhidos.

Assusta-nos, pois, que o clube tenha como referência de um modelo europeu de futebol, justamente o futebol eslovaco, que, conforme demonstrado, é um dos mais fracos e menos rentáveis do continente europeu. 

Além disso, não obstante ao limitado conhecimento sobre sistema de jogo, ou do futebol desenvolvido dentro das quatro linhas, não compactuamos da visão que o futebol europeu segue um padrão único, que possa ser replicado nos clubes brasileiros.

Já há alguns anos o Barcelona ensinou ao mundo um modelo de gestão de futebol baseado na unidade de seu departamento de futebol, desde as categorias de base, até o profissional. Não à toa conquistou o mundo com uma equipe formada na famosa “La Masia”. Aqui, engatinha-se na formação de uma unidade, de um padrão sólido de jogo, que acaba sendo modificado ao prazer de cada novo técnico que assume o clube.

Ora, o que pretendemos, exatamente, em termos de formação de um padrão de jogo no futebol Eslovaco? Ou o Fluminense será capaz de aplicar na Europa o estilo de jogo que se pratica no futebol brasileiro? A quem interessa isso?

Ou vamos adequar nossas divisões de base ao modelo europeu?  Conseguiremos um técnico que, no futuro, possa impor essa filosofia nos profissionais? E, se tudo isso for possível, voltamos ao questionamento essencial: será que é o modelo eslovaco que procuramos para o futebol brasileiro, mais especificamente para o Fluminense? Não seria mais interessante, por exemplo, um investimento em uma sólida parceria com um clube de divisões inferiores de Portugal ou Espanha, países com maior visibilidade no continente europeu? Será que, considerando a necessidade de formação de atletas, a competitividade não se torna um fator preponderante ao ponto de, por exemplo, ser mais relevante uma experiência nas divisões de acesso nacionais que uma aposta no desenvolvimento do jogo na Eslováquia.

É evidente que a aproximação e o crescimento do vínculo entre o Fluminense e um clube que possa servir como base para desenvolvimento de seus talentos é fator essencial, principalmente pelo maior controle que possibilita de seus próprios jogadores. É o que fazem o Barcelona, com o seu Barcelona B, e o Real Madrid com o Real Madrid Castilla, da Segunda Divisão B (equivalente à terceira divisão) do campeonato espanhol.

Mas é difícil acreditar que não teríamos condições de estabelecer práticas semelhantes com clubes mais competitivos, mesmo no futebol brasileiro ou em países mais relevantes no cenário futebolístico.

Uma vez mais, evidencia-se que um ótimo projeto perde-se por uma execução forçada que não se mostra capaz de levar o clube a atingir os objetivos primordiais dessa empreitada.

Por outro viés, tanto Marcelo Teixeira quanto o presidente Peter Siemsen destacam a possibilidade de exposição e internacionalização da marca do Fluminense junto ao mercado europeu. Uma visão moderna, correta e elogiável. Entretanto, será que o futebol eslovaco, abaixo da periferia do futebol europeu, é o caminho adequado para tal finalidade?

Façamos um rápido exercício. O amigo leitor saberia informar quem foi o campeão da 2ª divisão do Campeonato Acreano? Aliás, alguém conhece algum time da segunda divisão do Acre?

É provável que sequer saibam quem ganhou a primeira divisão, quanto mais a segunda. Estamos indo disputar algo equivalente a este torneio. Será que esse é o caminho para internacionalização de uma marca que já é tão forte em um mercado futebolístico de grandes proporções, como a do Fluminense?

A propósito, o campeão foi o Andirá. Provavelmente será a primeira e última vez que você escutará falar desse clube. Assim como você, provavelmente, jamais saberá o nome de qualquer clube da Eslováquia, exceto o Samorin.

Será que o Fluminense terá espaço para crescer em um mercado dominado por clubes como Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Chelsea, Bayern de Munique, Juventus, entre outros? E por meio do campeonato eslovaco?

Leio, pois, que um dos focos desse projeto é alcançar uma liga europeia. Ora, amigos tricolores, se mal temos condições de formar um time forte para disputar o campeonato brasileiro sem percalços, e não conseguimos alcançar a Libertadores, qual a possibilidade de montarmos um time capaz de apresentar um futebol de nível em partidas contra clubes como Liverpool, Sevilla ou Lazio, para falar de equipes que disputam com frequência a Liga Europa?

Será que o caminho para tal internacionalização passa por levar goleadas históricas dos maiores clubes europeus? Não posso enxergar tal possibilidade como algo positivo.

Se queremos tornar nossa marca internacional, não há melhor caminho do que fazer investimentos que nos coloquem na disputa da Copa Libertadores. Que nos possibilite vencê-la e disputar uma Copa do Mundo de Clubes. E que atraia convites para torneios europeus, onde enfrentaremos não um time da segunda divisão da Eslováquia, mas clubes espanhóis, ingleses, italianos ou alemães. De igual para igual. 

Ora, se estamos falando de internacionalização, parece-nos muito mais inteligente pensar nos Estados Unidos, maior mercado consumidor do mundo, onde o futebol está em crescimento, mas com ampla estrutura esportiva e muito espaço para desenvolvimento de uma marca sólida e forte.

Se os investimentos para jogar a MLS são altos para os padrões brasileiros, porque não pensar em uma liga secundária, como a USL ou da NASL, ligas secundárias com nível de disputa muito superior ao da segunda divisão da Eslováquia e com média de público superior a 10.000 pagantes por jogo. 

O padrão de desenvolvimento esportivo nos Estados Unidos cria laços de aproximação entre clubes locais e as cidades onde estão vinculados. Os investimentos são oriundos de empresas cuja sede se localiza na cidade de fixação desses times. Um movimento muito mais interessante do que esconder-se na Eslováquia, com um público que atingiria não apenas o mercado americano, mas parte da América Central.

A aproximação com o futebol europeu, sim, é uma vantagem enorme. Poder desfrutar da organização e da estrutura oferecida pela UEFA e pela Associação de Clubes Europeus é algo extremamente válido. Mas será que alcançaremos tal feito através da Eslováquia?Mais uma vez, parece-nos claro que os conceitos são excelentes, mas a prática não apresenta qualquer viabilidade de alcance dos objetivos traçados.

Diante de todo o exposto, resta-nos a convicção de que o mercado eslovaco não se mostra capaz de permitir ao clube atingir os objetivos inicialmente traçados para o projeto, de forma que um investimento diversificado, em outros mercados, incluindo o próprio mercado brasileiro, se mostra mais eficaz, inclusive sob o ponto de vista financeiro, exceto se considerarmos um desvio dos seus reais objetivos, tema que será debatido posteriormente.

 

Investimento e Retorno Financeiro

Segundo informação publicada pelo GloboEsporte.com, em matéria especial sobre o tema, o custo do projeto em análise é de cerca de R$ 1 milhão (250 mil euros), devidamente “desviados” de valores inicialmente projetados para serem investidos em Xerém, além de outros R$ 400 mil por ano (ou 100 mil euros), pelos próximos cinco anos.

Trata-se, a nosso ver, de um custo de investimento relativamente baixo, mas que se torna relevante em um momento que o clube sofre para colocar as suas contas em dia, e, principalmente, por se tratar de um valor programado para ser investido nas categorias de base do clube, as quais necessitam de um aporte na casa de R$ 3 milhões para adequação de sua estrutura básica.

Se tal ponto de vista não fosse o suficiente, pelas razões já expostas, não compartilhamos da visão de Marcelo Teixeira quanto à facilidade para recuperação dos valores investidos. Estamos falando, pois, de ao menos R$ 3 milhões nos próximos anos, investidos em uma estrutura que atenderá ao clube de forma limitada.

Acerca da questão, Teixeira destacou o seguinte:

“Em dois ou três anos prevemos que esteja zerado, que o clube seja superavitário. Se chegar à primeira divisão, por exemplo, tem cota de televisão. Existem outros fatores como escola de futebol, que é muito forte por lá, ingressos, vendas, patrocínios... Qualquer receita faz diferença pelos baixos custos do futebol na Eslováquia. A receita do Samorin no último ano foi de 300 mil euros. Já temos 150 mil euros garantidos para a próxima temporada e esperamos chegar aos 400 mil euros”.

O grande problema é que as previsões financeiras realizadas pela atual diretoria raramente se concretizam. A análise positiva se fundamenta em uma aposta dentro do melhor cenário possível, com o clube eslovaco chegando à primeira divisão.

Preocupa-nos, portanto, que a atual diretoria, em seu último ano de gestão, esteja realizando gastos completamente questionáveis, que vincularão os dois próximos presidentes do clube, sem que a questão esteja sequer sendo debatida com os atuais candidatos.

 Então, diante de tantos pontos questionáveis, de onde vem tamanha certeza de que tal iniciativa seja um bom negócio? Com a palavra, novamente, Marcelo Teixeira:

“A partir de agora temos mais espaço. No último jogo, tivemos três jogadores da base em campo. Agora vamos ter três mais cinco lá. Se você vendia um, na teoria vai vender dois ou três. A receita aumenta”.

O Presidente Peter Siemsen parece compartilhar da visão de utilização do mercado europeu como entreposto comercial. Acerca do tema, o mandatário tricolor manifestou-se no seguinte sentido:

“Haverá uma exposição do atleta, uma colocação do clube no mercado. Vamos ocupar um espaço: clubes médios da Europa, hoje, compram e revendem jogadores brasileiros. Se houver venda, será reinvestido em formação e pagará todo o projeto”.

Será que tudo se resume a vender jogadores? Estamos nos associando a um clube eslovaco que será tão somente uma barriga de aluguel para inserção de atletas no mercado europeu? Um simples entreposto comercial?

Existe, pois, um desvio de finalidade na função das divisões de base do Fluminense. Xerém deve ser usado, prioritariamente, para revelar jogadores que possam colaborar no time principal e, depois, serem vendidos e reforçarem o caixa do clube. Como o Santos fez com Neymar. Como o Palmeiras faz com Gabriel Jesus.

Ora, e quem serão os atletas que serão encaminhados para a nossa filial eslovaca? Evidentemente, serão jogadores que foram destaque nas categorias de base, afinal os dirigentes europeus não são amadores e não farão investimentos em atletas medianos. Os primeiros escolhidos para a empreitada foram, vejam, Luquinha, um meia-armador que foi um dos destaques do título do Torneio de Obendorf em 2013. Outro escolhido, Matheus Pato, é um atacante que se consagrou artilheiro do Brasileirão Sub-20. Peu, o terceiro escolhido, é atacante e foi artilheiro do Metropolitano no estadual de Santa Catarina, onde estava emprestado. Luis Fernando, último escolhido, é volante e foi o capitão do time campeão brasileiro sub-20.

Será que nenhum desses jogadores é melhor do que o Maranhão? Do que o Richarlison e seus R$ 10 milhões? Será que nenhum desses atletas servia sequer para rotação do time?

Mais uma vez, resta evidenciado que tal projeto visa tão somente a criação de um entreposto para comércio de atletas na Europa, feito que se configura como o mais completo e absoluto desvio dos reais objetivos das categorias de base dos clubes de futebol que, em sua essência, é desenvolver atletas que possam contribuir com os profissionais, e não para revendê-los.

E, sob tal nefasto ponto de vista, passamos a entender a escolha do fraquíssimo futebol eslovaco para tal iniciativa. Lamentamos, contudo, no absurdo desvio de função que parece estar sendo operado em um projeto bem desenhado e que, se bem executado, poderia render excelentes frutos ao clube.

Ainda sobre o assunto, gera questionamento a relação que será estabelecida com o clube eslovaco. Alguns jogadores serão cedidos ao referido clube, que pertencerá, caso aprovada a sua compra, 77% ao Fluminense. Em caso de venda, o valor desses atletas retornará ao clube em sua totalidade ou estamos emprestando atletas de graça para lucrar 77% com suas vendas?

E se esses jogadores se destacarem no fraco futebol eslovaco? Serão comercializados imediatamente? Ou voltarão para ajudar o clube? A visão exposta por Peter Siemsen é a resposta óbvia ao questionamento.

E se, quem sabe, o novo Hamsik aparecer na cidade de Samorin? Será vendido a um outro clube maior? Ou teremos o atleta no Fluminense?

São questões que precisam ser melhor explicadas. De toda forma, sob o ponto de vista financeiro, parece ser mais interessante para o Fluminense investir na qualificação e estruturação de suas categorias de base aqui no Brasil, a fazer investimentos de exploração limitada, o que, mais uma vez, induz ao reconhecimento de tratar-se de um negócio questionável a compra/parceria com o STK Samorin.

Por fim, causa-nos extremo desconforto a visão evidenciada pelo presidente do clube, colocando o Fluminense como clube mediano. Ora, presidente, o Fluminense não é um clube mediano na Europa. É um gigante brasileiro respeitado onde vá jogar pelo mundo. Ainda que esta gestão tente, de todas as formas, apequenar o clube.

 

Conclusão

Conforme exaustivamente exposto e repetido no decorrer desta análise, o projeto Fluminense/Samorin se encontra fundamentado em conceitos sólidos e extremamente importantes para o futuro do clube. A transformação de tais planos em ações práticas, contudo, parece ter se perdido pelo caminho, em razão de interesses escusos, intimamente relacionados à necessidade de um desvio de seu caráter gerencial para uma proposta meramente eleitoreira.

Aliás, a enorme dificuldade em transformar boas ideias em ações sólidas e capazes de colocar em prática conceitos de boa prática gerencial é uma das grandes marcas da atual gestão. Infelizmente, os objetivos de projetos interessantes acabam sendo adequados aos interesses de um grupo de pessoas que parecem enxergar apenas o aspecto negocial do esporte, deixando de lado a sua verdadeira essência.

Ao observar que o presidente Peter Siemsen já se manifesta publicamente quanto à importância do projeto para facilitar a negociação de atletas no mercado europeu, nos resta evidenciado o real caráter do que está sendo posto em prática.

É preciso que o Fluminense tenha uma visão mais ampla do real objetivo inerente às suas divisões de base, qual seja, a formação de atletas para o time profissional e não para revenda e, principalmente, para o futebol do clube.

Em suma, respondendo a pergunta título deste texto, entendo que o projeto STK Samorin, se não chega a ser uma bola fora, passa muito longe de ser um golaço de placa. Aproxima-se mais de uma bola na trave. Mas bolas na trave não alteram o placar. E nem vencem jogos.

 

 

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Rafael - 15/08/2016 às 13h16
Prezado Bruno Carril, respeito a sua opinião mas não estou de acordo. Comparar a Eslováquia com o Acre é um absurdo, chega a ser infantil. A proposta apresentada é inovadora e tem potencial de transformação para o clube. Só o tempo irá nos mostrar o quão acertado será esse novo passo mas, em virtude dos pouco gasto a ser feito, e com todos os possíveis e grandiosos frutos a serem colhidos, eu como torcedor do Flu aprovo essa idéia. Bola na trave?? Difícil viu... isso ai vai ser um golaço de placa!!
Responder
BRUNO PEREIRA RIAL CARRIL - 21/09/2016 às 16h39
Caro Rafael,

O foco principal do texto é demonstrar que o projeto se fundamenta em uma ideia interessante, sólida, mas que a forma como está sendo desenvolvida coloca em questionamento o seu sucesso, principalmente em razão de um evidente desvio da filosofia aplicada ao que foi traçado.

Pelas manifestações expostas pelo próprio presidente e pelo Marcelo Teixeira, fica bastante claro que o objetivo é viabilizar a venda de atletas no exterior e não a sua formação.

Quanto a comparação entre Eslováquia e Acre, que você considerou infantil, acredito que não tenha entendido o ponto de vista. Não estou comparando o país com o Estado, mas a importância que o futebol daquele país tem no contexto europeu, com a importância dos times do Acre no futebol nacional. E, sim, sob esse aspecto, existem semelhanças.

Sempre poderemos recorrer ao tempo para avaliar decisões. A grande questão é que, quando cada uma dessas decisões são tomadas, não temos a exata noção do que ocorrerá e somente nos resta tentar prever os rumos.

Respeito a sua opinião e a defesa ao projeto, e espero que a motivação não seja somente a defesa cega de tudo que a atual gestão faz. Mas realmente acredito que o projeto já nasce com suas bases filosóficas deturpadas
sandra monteiro - 14/07/2016 às 20h30
Acho uma bola fora. Por que esta diretoria pensa pequeno? Na hora de vender nossos craques - preço de banana. Na hora de comprar os pernas de paus - uma grana preta. Internacionalizar o Fluminense não pode ser com um país completamente fora do futebol. Acorda diretoria... o Flu é grande - pequeno são vocês. ST
Responder
Carlos Matstos - 14/07/2016 às 11h05
Eu acho a ideia maravilhosa, e Clube brasileiro nenhum teve, até aqui, proposta tão ousada. Tem que começar mesmo por uma centro menor, desde que seja na Europa. Não poderia se comprar o Barcelona, nem o Arsenal, nem o Bayer, mas o STK Samorin, dá para fazer, e está no Centro da Europa. Imaginem se com o engajamento de atletas do Fluminense o STK consiga agora nessa temporada acessa à 1ª Divisão (já conseguiu da 3ª para a 2ª), e, na próxima temporada, disputando a 1ª Divisão comece a fazer frente as principais equipes do País, vai ou não, esse fato, ganhar repercussão em todo o continente Europeu ?????? Lógico que sim. Tem que se fazer o que é viável, e, nesse momento, viável é o STK Samorin, daqui a pouco outros Clubes brazucas vão tentar comprar essa ideia Tricolor, sempre um passo à frente na história do futebol tupiniquim. Parabenizo os idealizadores do projeto na pessoa do Presidente Peter e desejo todo o sucesso nessa empreitada.
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Marcos Adjuto - 13/07/2016 às 14h53
Acho uma boa...temos que fazer o nome do Fluminense ser grande também, fora do país.
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