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    Sergio Neves convenceu Adão a usar folha de "Parreira" e a torcer pelo Fluminense. É Advogado e Procurador do Estado, já tendo exercido o cargo de Procurador Geral do Estado do RJ. É Doutor PhD em Direito Econômico e Socioambiental pela PUC-PR.
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em foco • Por Sergio Neves • 10 ago 2017
Abel, esse pai! (por Sérgio Neves - “O amigo do Mario”)

Um velho mestre pediu a um jovem discípulo, que estava muito triste, que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d’água e bebesse. “Qual é o gosto?” perguntou o mestre. “Horrível”, disse o aprendiz. O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal para jogá-lo num lago de água doce ali perto. Caminharam em silêncio até o lago, onde o jovem jogou o sal que levara. O velho disse, então: “Agora, beba a água do lago.” Enquanto a água escorria do queixo do jovem, o mestre perguntou: “Qual é o gosto?” “Bom!” disse o aprendiz. “Você sente o gosto do sal?” perguntou o Mestre. “Não”, disse o jovem. O mestre sentou-se ao lado do jovem, pegou sua mão e disse: “A dor da vida é puro sal, nem mais, nem menos. A quantidade de dor na vida permanece a mesma, exatamente a mesma. Mas o “tamanho” da dor que se sente depende do recipiente em que for colocada. Então, quando você está sofrendo por alguma razão, a única coisa que você pode fazer é aumentar o sentido das coisas.  Pare de ser um copo. Torne-se um lago!

Quão forte você é? Nós andamos muito distraídos! Meus amigos, que tapa levamos em nossos rostos. Tapa? Um raio de voltagem incalculável abateu-se sobre as nossas cabeças. O choque paralisou-nos, fez nossa alma sair de nosso corpo, tocar o intangível e concretizar o abstrato: amor e vida. O que há mais de real, senão o que não vemos, o que não consumimos e o que não nos é dado tocar nem saborear, mas que dá relevo e densidade à alma, torna-a mais intensa que o corpo e faz-nos sentir plenos. Viver e amar basta.

Caminhava num shopping com mulher e filhos quando recebo a notícia do falecimento do filho do nosso Abel. Os mundos inverteram-se nesse instante. A impressão do que se precisa ter e muito do que se quer ter, tão concreta nesses corredores de lojas, precipitaram-se num vazio qualquer. Olhei para os lados, toquei meus filhos e esposa e vi que tudo o que preciso já me pertencia. Que felicidade e que plenitude! Minh’ alma cresceu, adiantou-se a meu corpo e cresceu perante meus olhos, como que dizendo: você é feliz!

E o Abel? O nosso Abel. Esse pai, que sofreu a maior dor dada aos pais, não bebeu a água do copo. Seguiu a lição do mestre e buscou o lago, ainda que em dor pungente. É evidente que deve correr-se em sentimentos de ausência e saudade, que não somos capazes – e nem queremos sê-lo – de mensurar. Mário Quintana diz que “saudade é o que faz as coisas pararem no tempo”. Abel não parou. Que força e, que capacidade de superação e que lição de pai está dando a todos nós. Voltou aos treinamentos no Fluminense, dizendo que voltara por ser pai, por se reconhecer pai de todos os atletas.

Você está equivocado Abel. Você é como um pai para todos nós. Não só para os atletas, mas toda a torcida tricolor e, arrisco dizer, para muitos torcedores de outras equipes. Pessoa sincera é a que se basta no olhar para dizer o que sente. É esse seu olhar verdadeiro Abel, que dá confiança a todos nós, que nos faz sentir seus filhos e protegidos. O dia sumiu, tudo escureceu, que a noite nublou, mas você trouxe a lição de que as estrelas lá estão, que não morreram e que nos cabe viver e aguardar que um primeiro brilho estelar rompa essa barreira nebulosa.

Nesse domingo, Dia dos Pais, muitos de nós terão ausências a sentir, saudades a parar o tempo. Permitam-se, sofrer faz parte, mas busquemos esse lago onde Abel ensinou-nos a despejar nossa dor. Sejamos menos distraídos no dia a dia e vivamos as alegrias da essência de nossos pais e filhos, não a dos presentes e dos efêmeros consumos. Não resista nessa hora a socorrer-se da sábia fonte dos poetas. Se uma lágrima corre, um poema é o lenço da esperança a enxugá-la. Sonhe, com Clarice Lispector:

Sonhe com aquilo que você quiser.

Vá para onde você queira ir.

Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.

Dificuldades para fazê-la forte.

Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz.

Essa é a vida, há de se ter tristeza para fazê-la humana e esperança para fazê-la feliz. Vejam a sabedoria do nosso Abel, que, em atitudes, segue, com aparente força e imensa dignidade, essas lições dos grandes mestres e poetas, ensinando-nos e educando-nos. O que dizer ao Abel? Melhor nada dizer, só abraçá-lo, para sempre. Mais do que nunca, esse homem mostrou a que veio e sua força. Quem é Abel? Abel é esse pai, nosso pai. Que, no Dia dos Pais, ainda que faltando um enorme pedaço, Abel receba o abraço de toda a torcida tricolor e de todos aqueles que sabem reconhecer uma pessoa de valor.

Façamos, em nossas casas, um minuto de absoluto silêncio, como reflexão. Se lágrimas houver, que não se as deixem cair no copo. Com a calma e a serenidade de nosso Abel, vamos ao lago derramar o sal de nossas lágrimas. Daí é seguir em frente e aguardar, que o nosso céu voltará a ter estrelas.

Feliz vida dos pais!

 

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Fuad - 10/08/2017 às 19h32
Emocionante homenagem
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