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    José Roberto Pires
    José Roberto Pires é carioca, servidor da área de fiscalização do Banco Central, pai de dois filhos e projeto de triatleta. Tricolor de arquibancada, é conselheiro do clube desde 2011 e ex-participante da Flusócio.
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em foco • Por José Roberto Pires • 02 fev 2018
Os riscos do “30 de janeiro” (por José Roberto Pires - "Fatos e Versões Tricolores")

Por volta de novembro de 2017, por questões pessoais e também por algumas divergências pontuais, optei por sair da Flusócio, grupo do qual fiz parte por quase 10 anos, desde que adquiri meu título de sócio proprietário. Aproveitei a decisão tomada para tentar tirar um “período sabático” do Fluminense. Mas, para “doentes” como eu, é impossível desligar, mesmo na natureza exuberante de Visconde de Mauá ou no mar do Caribe. Volta e meia, lá ia eu buscar alguma notícia...

E, fora do “front”, senti a realidade tal e qual é passada para o torcedor comum. Impressionante a quantidade de notícias ruins. Duas ou três por dia. Nem nas férias as redes sociais deram trégua. Como nunca, amigos tricolores que não convivem comigo “lembraram” de mim com mensagens de Whatsapp e Messenger cobrando para saber o que estava acontecendo com o Fluminense.

Até eu, mesmo conhecendo de dentro a seriedade da gestão que acompanhei de perto até então, quando fechava o olho mentalmente dava vontade de extravasar com aquele libertador “Ei, Abad, *#@$”. Durante quase todo esse período, quase zero contato com a gestão ou com tricolores. Um almoço com meu “amigo inimigo” Dedé Moreira. Uma ou outra troca de mensagens com o Paulo Brito, do NetFlu, que, com um certo prazer sádico, fazia questão de me mandar mensagens com as piores notícias entre as ruins. Mas, “por fora”, sabendo de tudo como qualquer mortal tricolor, sem as justificativas ou desmentidos de quem está dentro.

A vontade era de seguir de “férias” de Fluminense até a tormenta passar. Mas meu dever de conselheiro me chamou a voltar ao Conselho Deliberativo na última terça-feira. Pauta importante, que incluía a indicação de VP´s de áreas chave e a eleição para o cargo vago de Presidente do Conselho Deliberativo, talvez o cargo mais importante do clube depois do de Presidente.

Fui de “má vontade”, mas disposto a conversar com o máximo de pessoas de dentro e ouvir as versões internas para todos aqueles fatos que eu acompanhara pela imprensa. E vontade de cobrar! Afinal, antes de tudo, sou torcedor.

Conversei com alguns poucos, mas superficialmente, não a ponto de me inteirar de tudo. Logo a reunião foi aberta pelo Presidente em exercício que, diferente de outros presidentes do Conselho Deliberativo anteriores, teve pulso para começar no horário marcado, algo raro. Pouco depois do hino oficial, vi que a peleja não seria incruenta nem de paz. Rojões do lado de fora fizeram estremecer o chão. O Conselho, que tem idosos e senhoras, logo ficou aterrorizado. Mais ainda quando alguém anunciou em tom alarmista: “INVADIRAM!”.

Se eu fiquei com medo? Óbvio que sim! Imagino as senhoras e os idosos que lá estavam, acuados, com olhares que não escondiam a tensão. Estou na política do Fluminense para debater ideias, não para sair no tapa com ninguém. Quando vi camisas de organizadas no meio, pensei no pior. Afinal, sem generalizar, sabemos que nelas se infiltram psicopatas capazes de explodir uma barra de ferro na cabeça de alguém sem o menor remorso.

Mas, pouco a pouco, a situação foi mostrando estar “sob controle”. Pro meu espanto, mesmo com alguns mascarados como “black blocs” no grupo, todos foram de forma relativamente ordeira ocupar as galerias do Salão Nobre. De lá, estenderam a já infelizmente tradicional faixa “Fora Abad”. E entoaram os gritos de “Fora Abad” e “Fora Flusócio” entre xingamentos e dedos apontados para um ou outro membro do Conselho.

Pelo salão, circulavam uniformizados com camisas pretas com a frase “Devolvam Nosso Fluminense” alguns sócios com a cara bem conhecida de todos, conselheiros de gestões anteriores. Logo percebi que havia uma “ordem” naquele protesto. O que por um lado era bom, afinal, sem comando, não era improvável que aqueles jovens indignados (com justiça) provocassem uma tragédia.

Logo que a polícia chegou, de forma relativamente ordeira, saíram do Salão e tudo ficou calmo a ponto de alguns conselheiros cogitarem dar prosseguimento à reunião.

Enfim. Protesto pacífico? Há controvérsias. Xingamentos. Gritos ameaçadores de “Uh, Vai Morrer!” e gente mascarada formam, no mínimo, um quadro de intimidação física e psicológica, algo que não pode ser considerado pacífico. Mas sabemos que é futebol. E em futebol, ninguém pede “dá licença, por favor”. Faz parte. É legítimo.

Óbvio que fiquei muito triste. Deprimido mesmo. Como o grupo que ajudei a crescer ao longo de quase uma década, e que tinha como maior qualidade justamente a comunicação com o torcedor, havia se distanciado tanto de sua torcida?

Vi um lado bom. Quem se dispõe a presidir o clube, mesmo nas situações mais difíceis, não tem direito de matar o que é mais sagrado para um torcedor: o que nosso hino chama de “verde da esperança”. E Abad, muito mal assessorado na sua comunicação, parece ter esquecido disso. Uma coisa é ser austero, “pé no chão”. Isso é necessário para que reequilibremos nossas finanças, condição básica para reencontrarmos nossa identidade vencedora sem a muleta da Unimed, que encobria muitos erros. Mas o Presidente e o clube têm que ter competência para mostrar para o torcedor que há um horizonte. Que dias melhores virão. Presidente jamais pode aparecer em público abatido, com cara de enterro. Se assim estiver, e é normal, dadas as dificuldades, é melhor se esconder um pouco, trabalhar em silêncio ou deixar outros falarem. Se toda a revolta do torcedor comum e os fatos de terça servirem para acordá-lo para isso, ótimo.

Noite em claro e um dia seguinte moribundo no trabalho pensando em tudo. Não resisti e tive que acessar as redes sociais. Figuras conhecidas que hoje estão na oposição celebravam a ação como um “despertar da torcida” e um dia histórico. Outros, mais exaltados, falavam em aterrorizar e infernizar até que Abad e Flusócio saiam do clube “na marra” ou “debaixo de porrada”. Durante a infinita noite, retroagi postagens dessas figuras de oposição, algumas que pareciam, como maestros, reger a manifestação, e identifiquei uma incrível sintonia.

Uns, os mais visados, exaltando a ação em tom moderado. Outros replicando com as tais ameaças de que não darão sossego até que Abad e Flusócio saiam “na marra”. Outros iam além, que Cacá também tinha que sair e que novas eleições deveriam ser convocadas. Tudo isso no meio de xingamentos e ameaças físicas, algumas direcionadas a um membro específico da Flusócio que é mais atuante nas redes.

Até aí, embora eu considere qualquer ameaça grave, tá no contexto atual da nossa sociedade, marcada por radicalismo e intolerância em todas as suas dimensões. Não dá para censurar adolescentes, muitos de outros estados, de extravasarem suas revoltas dessa forma. Quem tem que neutralizar isso é a gestão, com trabalho e capacidade de mostrar horizonte que resgate nesse torcedor o “verde da esperança”.

Mas uma pulga ficou atrás da minha orelha. Por trás da justa revolta com o momento que todo tricolor que tenha “sangue na veia” sente, há pontos que sugerem algo muito bem pensado. As tais figuras conhecidas que desfilavam pelo Salão Nobre parecendo ter aquela manifestação sob total controle eram as mesmas que lideraram a campanha do candidato que ficou com a lanterna da última eleição, e colocou torcidas organizadas na porta do clube com gritos de ordem e intimidação dos eleitores que chegavam para votar. Por outro lado, recebi mensagem com boatos de que um candidato e um pré-candidato da última eleição já almoçavam discutindo abertamente a composição de uma “nova gestão” (????).

Alto lá!

Uma coisa é adolescente extravasar nas redes que Abad, Flusócio, Cacá ou qualquer outro tenha que sair “na marra” ou “na porrada”. Outra é sócio do clube articular um movimento de terror e intimidação física para forçar essa situação e se aproveitar do mau momento para, na marra, conquistar o que as urnas lhes negaram. Foi muito trabalho de grandes tricolores para consolidar um clube democrático, onde o torcedor de arquibancada tenha voz e representatividade. Um clube com ordem, com estatuto, com poderes constituídos. Onde as soluções sejam debatidas e a evolução venha de forma civilizada.

Não podemos transformar o clube numa guerra de milícias. Temos o exemplo de um rival onde o sócio não é representado e, quando tenta dar sua opinião, é intimidado pela truculência e pela selvageria.

É esse tipo de política que queremos para o Fluminense?

Nisso não há meio termo! Para mim, sócio que comprovadamente esteja incitando esse tipo de intimidação tem que sofrer as sanções estatutárias e até da lei. Isso não é uma ameaça à gestão. É uma ameaça ao Fluminense! Nenhum tricolor razoável, mesmo da oposição, pode apoiar nada nesse sentido.

Por enquanto, é só uma suspeita. Se Abad levará o mandato até o fim, é uma questão pessoal dele. Afinal, só ele sabe a pressão desumana que vem sofrendo. Torço para que ele tenha força para seguir adiante, pois, apesar de alguns erros, vem seguindo firme no desafio de ajustar o clube e resolver problemas que gestões anteriores empurraram com a barriga. Da minha parte, vou tentar ajudar no que puder e cobrar mudanças naquilo que julgo que está errado.

Mas vou lutar até o fim para que não se instale na política do clube uma guerra de milícias. Se o tal “vai sair na marra” extrapolar os desabafos juvenis de alguns internautas para uma ação orquestrada por sócios e players políticos, tenham certeza que haverá muita resistência. Mas, por enquanto, é só uma suspeita.

Por fim, agradeço muito ao Observatório a oportunidade. Peço desculpas que essa primeira coluna seja longa e pesada. Mas precisava expor o que penso com clareza de tudo o que vi nessa minha volta à realidade tricolor. Nas próximas colunas, vou me apresentar melhor. Usarei esse espaço para trazer ao debate, sem medo, a minha versão para os fatos tricolores. Sempre com humildade e aberto a mudar de opinião com argumentos.

Saudações Tricolores

 

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João Henrique - 03/02/2018 às 08h49
O autor só se esqueceu de falar que o Abad foi eleito sustentado por diversas mentiras. Eu sou sócio futebol e foi a primeira vez que eu votei e fiquei enojado de como ele se elegeu. Mentiu descaradamente sobre a situação financeira do clube e foi eleito graças ao apoio do Pedro Antônio que na primeira oportunidade que teve foi descartado. E pra piorar o cenário este conselho aprovou as contas da gestão Peter. Pra uma gestão que adora usar as palavras "transparencia" e "profissionalismo", não rolou nada disso até agora.

ST
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