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Finanças • Por Hector Werlang - GloboEsporte.com - Foto: André Durão • 19 mai 2017
Flu faz engenharia financeira e consegue dinheiro para pagar direitos de imagem

Não adianta resolver um problema pontual. É necessário criar as condições para que ele não se repita. Foi com este entendimento que o Fluminense realizou uma engenharia financeira para pagar os quatro meses de direitos de imagem dos jogadores em atraso. Ao contrair dois empréstimos totalizando R$ 36 milhões, a gestão do presidente Pedro Abad começou a cumprir a promessa feita ao elenco: quitou a metade da pendência - a outra será feita até o final do mês. Mas não parou por aí. Como os juros desta operação foram menores, fez uma espécie de troca de dívida. Quitou as que tinham parcelamento maiores a vencer em 2017, aliviando o fluxo de caixa, e renegociou prazos. O começo, no entendimento tricolor, da solução de um grande problema.

A temporada, aliás, é de aperto. A previsão orçamentária indica déficit de R$ 76 milhões no ano. Só no primeiro semestre, a diferença entre o que se arrecada e o que se gasta beirava os R$ 40 milhões. Era impossível não atrasar. Então, a direção escalonou débitos, procurou os credores e repactuou os pagamentos. Tudo depois de duas operações de crédito.

- Tivemos um soluço nos direitos de imagem, mas está resolvido. Estamos quitando tudo em maio. A gente fez duas operações em instituições financeiras. Em uma a gente reduziu a taxa de juros pela metade. E na outra reduziu em 1/3. Nesse processo de reestruturação, a gente quitou dívidas maiores. Quito dívida cara e fico com dívida mais barata, assim, meu compromisso mensal diminui. Me sobra mais caixa. Fizemos uma redução drástica no custo do dinheiro do clube - explicou o vice de Finanças Diogo Bueno.

Essas dívidas venceriam em 2017 e têm como credores, em sua maioria, empresários e clubes de futebol. São resultados de contratações feitas em 2015 e 2016, na gestão de Peter Siemsen. O uso de receitas extraordinárias no ano passado para reforçar o time levou a esta situação. Não à toa as luvas do televisionamento de jogos (R$ 80 milhões) e a venda de jogadores, especialmente Gerson (R$ 52 milhões) geraram um superávit enganoso de R$ 8 milhões. Algo que a atual gestão pretende mudar.

- O que a gente quer fazer é que deixe de vender para ter fluxo de caixa. Que a gente venda para investir, para quitar dívidas maiores. A nossa meta é que quando tiver receita de venda, ao invés de cobrir buraco de caixa, possa investir no clube - completou o dirigente.

Esta operação foi a segunda grande ação feita pelo Flu. No começo da gestão de Abad, o elenco foi reformulado, diminuindo a folha salarial. No total, 33 jogadores deixaram as Laranjeiras, entre rescisões e empréstimos. Uma economia anual de R$ 15 milhões.

 

Confira abaixo a entrevista completa com Diogo Bueno, vice de finanças do Fluminense.

 

Como o Fluminense conseguiu quitar os direitos de imagem?

Quando assumimos, em 20 de dezembro de 2016, o Fluminense tinha todas as suas dívidas financeiras vencendo em 2017. Então, a nossa gestão, que vai de 2017 até 2019, teve como primeiro trabalho identificar as maiores dívidas financeiras que o clube detinha. E chamar todas as instituições que a gente tinha crédito para fazer alongamento do prazo de pagamento. A gente fez repactuação do prazo. Ao invés de pagar em 2017, acertamos de pagar em 2017 e 2018. Face da melhoria do ambiente econômico do Brasil, reduzimos as taxas de juros das operações, o que é bom, pois reduz o custo dessa dívida no fluxo de caixa. Por fim, a nossa mensagem de transparência, com o déficit de R$ 76 milhões, com o orçamento aprovado, indicou um primeiro semestre bastante complicado. Conseguimos recursos novos para cobrir esse déficit no primeiro semestre.

 

Isso fazia parte do planejamento do clube...

O nosso planejamento financeiro sempre teve dois momentos para o clube. O primeiro momento era reduzir drasticamente a folha do futebol. Isso tem efeito de caixa relevante, com dispensas que tem de honrar e pagar. Depois, captar recursos no mercado mostrando comprometimento da gestão e com a nossa credibilidade. Então, mostrando o plano de ação, com ajuda da consultoria da Ernst & Young, a gente repactuou as dívidas e captou dinheiro novo.

 

Que dívidas eram essas?

A gente tinha dívida com agentes e empresários de futebol. Ainda as temos. Foram contraídas ao longo de 2015 e 2016, ou seja, não foram contratadas pela nossa gestão. A gente recebeu esse passivo. A gente falou: o Fluminense vai precisar alongar essa dívida. Isso tem de ser enfatizado: montamos um comitê, entre o futebol, financeiro e jurídico. Todas essas discussões passam pelos três departamentos. Listamos todas as dívidas com empresários e clubes de aquisições realizadas em 2015 e 2016. E a gente traçou a estratégia. E eu, como vice de Finanças, sentei à mesa com praticamente todos esses agentes. Expliquei a situação do clube, do compromisso do presidente Abad. E mais de 90% concordaram. Se convenceram de que o Flu mudou a forma de gerir. Pela primeira vez, temos uma integração de verdade entre quem contrata (o futebol), quem tem o compromisso de honrar as contas (o financeiro) e quem tem de ver o respeito das leis (o jurídico). A gente se reúne semanalmente para ver isso. Os empresários, quem faz o negócio, entenderam o movimento de profissionalismo nosso. A gente está profissionalizando a maneira de gerir o clube.

 

E os direitos de imagem?

Tínhamos um déficit de caixa previsto no semestre de R$ 40 milhões. E a gente conseguiu levantar recursos para alongar. Tivemos um soluço nos direitos de imagem, mas está resolvido. Estamos quitando tudo em maio. No orçamento, o déficit previsto é de R$ 76 milhões no ano. A gente fez duas operações em instituições financeiras. Uma a gente reduziu a taxa de juros pela metade. E a outra reduziu em 1/3. E, claro, nesse processo de reestruturação, a gente quitou dívidas maiores. Quito dívida cara e fico com dívida mais barata. Meu compromisso mensal diminui. Me sobra mais caixa. Trouxe dinheiro novo. Fizemos redução drástica no custo do dinheiro do clube. Claro que passou por outra ação. Em janeiro, não contratamos ninguém, só o Lucas, e dispensamos alguns jogadores. Abel foi o esteio da credibilidade com o grupo.

 

Esse movimento não elimina a necessidade de venda de jogadores, certo?

O presidente já falou isso ao torcedor. Infelizmente, o Fluminense terá de vender atleta. O que a gente quer fazer é que o Clube deixe de vender para ter fluxo de caixa. Que a gente venda para investir, para quitar dívidas maiores. A nossa meta é que quando tiver receita de venda, ao invés de cobrir buraco de caixa, possa investir no clube. O que quero mostrar é que o nosso planejamento é para zerar qualquer déficit de caixa. Que a gente não se depare mais com uma situação como a deixada ao presidente Abad. É isso que a gente quer entregar em dezembro de 2019. Esse é o trabalho. Quero atingir a meta de um déficit zero operacional e que as vendas não sejam direcionadas para tapar buraco. Que sejam investidas em estrutura e mais atletas. Não podemos gastar mais do que arrecadamos. Por isso, contratamos a EY. Olhamos o custo do clube, se está adequado aos outros clubes do Brasil ou a empresas com orçamento parecido. O Fluminense é viável. A nossa meta é entregar o clube com zero déficit de caixa. Isso é pensar o clube para o futuro, para os próximos 100 anos.

 

Como se melhora a saúde financeira do clube?

Essa gestão trabalha não só pelos próximos três anos. Mas pelos próximos 100 anos. O Fluminense tem de almejar ser o top 3 do Brasil em tudo o que ele fizer. Em três anos, conseguimos fundamentar os pilares para o clube figurar entre os melhores do Brasil. Como diria Nelson Rodrigues, o Fluminense nasceu para a eternidade. Vamos tomar todas as atitudes para fundamentar a eternidade do clube. Queremos credibilidade, transparência para que a torcida possa acreditar. Precisamos muito dessa confiança em ajeitar a casa.

 

Por quais motivos o Fluminense chegou nessa situação?

O clube fez contratações equivocadas nos anos de 2015 e 2016. É o grande motivo. E a utilização dos recursos de receitas extraordinárias de maneira equivocada nesse período. O Fluminense nunca esteve confortável nesses anos. Tem uma diferença: a primeira pessoa, na cadeira da presidência do clube, que tenta mudar isso é o presidente Pedro Abad. Ele está tomando as medidas necessárias. Não posso contratar, não contrata. É o primeiro presidente que, no jargão, não empurra com a barriga. É uma mudança de perfil. É uma grande preservação da instituição.

 

O segundo semestre ainda será de aperto?

A gente fez um planejamento no qual, a partir de julho de 2018, começaremos a ter mais tranquilidade e a sentir os reflexos das tomadas de decisões de agora. Isso tem sido dito aos diferentes credores, eles precisam entender essa dificuldade. O maior retrato disso é a previsão do déficit orçamentário. Estamos conversando com os credores e as instituições financeiras. Mostramos o nosso problema e o nosso planejamento. Até agora, temos tido o maior respeito de todos os nossos parceiros. Ganhamos voto de confiança. O que nos deixa muito engrandecidos. É o reconhecimento da grandeza do clube.

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Paulo Delphim - 20/05/2017 às 14h11
Parabéns Diogo e equipe. Estamos no caminho certo.
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