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Artigos • Nelson Rodrigues - Panorama Tricolor • 13 set 2017
A volta da leiteria (por Nelson Rodrigues - Panorama Tricolor)

Crônica publicada originalmente na Manchete Esportiva de 1/11/1958, e posteriormente republicada no livro “À sombra das chuteiras imortais”, Companhia das Letras, 1993, página 84. Reprodução isenta de finalidade lucrativa.

Canário viu que era chegado o momento, o grande momento do gol. Então, encheu o pé. Saiu uma bomba, amigos, e que bomba! Quase as traves desabam na cabeça de Castilho. Eu, cá em cima, na tribuna de imprensa, calculei: — “Desta vez não tem castigo!”. O Fluminense estava ganhando de 1 x 0* e a bala de Canário seria o maldito empate. Pois bem: — quando a torcida tricolor gemia a palavra gol, eis que ocorre o milagre: — bola no travessão! Durante alguns momentos, houve um carnaval na pequena área tricolor. A bola pedia pelo amor de Deus: — “Me chuta! Me chuta!”. E não apareceu um pé americano que a empurrasse para o fundo das redes. Salvara-se o Fluminense de um gol certo, infalível, catastrófico. Ao meu lado, um americano abria os braços: — “É a leiteria! Voltou a leiteria!”. Sim, ele via, ali, o dedo salvador da leiteria. Outros americanos, também furiosos e também esbravejantes, descobriam no gol salvo uma coincidência entre o retorno de Zezé Moreira e a reabertura da leiteria.

A leiteria! Vale a pena traçar aqui, sinteticamente, o seu resumo biográfico. Abriu as portas, pela primeira vez, em 51. De repente, os adversários começaram a perceber que o Fluminense não jogava somente com classe, somente com técnica. Castilho era bom, era ótimo, era formidável. Mas um arqueiro tem os limites da condição humana. Ora, Castilho fazia defesas sobrenaturais. E todo mundo começou, por trás do arqueiro, a ver a influência extraterrena da leiteria. Numa amargura medonha, o inimigo rosnava que * Fluminense 1 x 0 America, 23/10/1958, no Maracanã. Castilho era o leiteiro. O fato é que o Fluminense tornou-se gloriosamente o campeão de 51. Mas já nos anos seguintes a leiteria não funcionou tão bem. Estava de portas fechadas ou de portas a meio pau. Mais algum tempo e ela fechou de todo. No corrente ano, sobretudo, já ninguém falava mais da leiteria metafísica que tanto nos valera no passado.

Confesso, amigos: — havia em mim, como em todo tricolor autêntico, a funda, a inconsolável nostalgia da nossa querida protetora. Realmente, o nosso papel no presente campeonato tem sido o seguinte: — apanhar bem e ganhar mal. As nossas derrotas são medonhas e cada vitória nossa é feia como uma derrota. E, quando já não havia mais esperança, eis que a leiteria reabre, com estrondo, as suas portas mágicas. Amigos, manda a verdade que se diga: — ela influiu, ontem, no resultado da batalha. Digo isso de peito aberto e fronte erguida, porque não acredito em futebol sem sorte.

Digo mais: sem esse mínimo de sorte, o sujeito não consegue nem chupar um Chicabon, o sujeito acaba engolindo o pauzinho do Chicabon. E o Fluminense estava jogando sem uma ínfima gota de sorte. O time já entrava em campo coberto de azar. Sim, amigos: — o time pisava o gramado certo de que estava marcado, inexoravelmente, pela derrota. Faltava-nos um pouco, um tostão, um vintém de sorte.

Ou por outra: — era a leiteria que se estiolava a um canto, com as garrafas irremediavelmente vazias. O leite já não jorrava mais das tetas da sorte. As pessoas estreita e crassamente objetivas colocavam o problema das nossas frustrações em termos técnicos, táticos, físicos e nada mais. Era um engano funesto. Ninguém acreditava que há qualquer coisa de laticínio nos gramados, nos espetaculares êxitos terrenos.

E, domingo, graças a Deus, foi belo, foi sublime. De certa feita, Amaro chutou. Diga-se: — chutou de longe. Era tal a distância que, chutada devagar, a bola levaria meia hora para chegar a seu destino. Então, ocorre o seguinte: — Castilho achou que devia fazer golpe de vista. Não se mexeu; ficou só olhando. A bola bateu na quina da trave e só não entrou porque estava lá, velando, a leiteria. Um americano fez, a bico de lápis, uma estatística: — o Fluminense sofreu quatro bolas na trave! Vejam bem: — nem duas, nem três, mas quatro! O America suava torrencialmente e encontrava tapado o arco tricolor. E é bom, amigo, é gostosíssimo quando a nossa torcida sente, na cara, o sopro da sorte. Repito: — em futebol, não basta jogar bem. Com um timaço, e depois de estar ganhando de 3 x 0, o Vasco ainda foi empatar com o Bonsucesso. Ora, o Fluminense jogou bem domingo e foi superiormente orientado. Mas porque a leiteria esteve presente, e salvou, com a trave, quatro gols, eu a promovo a meu personagem da semana.

Panorama Tricolor
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