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Debate • Texto e foto: Felipe Siqueira - GloboEsporte.com • 08 mar 2018
Fala, Autuori: dirigente analisa realidade do Flu, revela convites e critica estaduais

Paulo Autuori foi anunciado como diretor esportivo de futebol do Fluminense no dia 18 de dezembro de 2017. Com mais de quatro décadas de experiência no esporte, o dirigente chegou com a missão de organizar o futebol tricolor, servindo de elo entre diretoria, comissão técnica e jogadores.

Em seus primeiros dias de trabalho, encarou um clube em ebulição: Gustavo Scarpa na Justiça, dispensas polêmicas de Diego Cavalieri e Henrique, salários atrasados... Passados dois meses e meio, conversamos com o dirigente no começo desta semana. Ele falou, dentre outras coisas, sobre a atuação do Tricolor no mercado:

- Neste momento, não temos condições de ir ao mercado e contratar jogadores da maneira que gostaríamos de fazer. Jamais vamos deixar de colocar isso como realidade. O Fluminense tem que resgatar a capacidade do clube de investir como instituição. Os jogadores têm que vir para cá por saberem que há uma instituição forte, e o Flu é uma instituição vitoriosa, histórica e de excelência por natureza, mas que perdeu essa capacidade e precisa se reencontrar com isso. Aqueles jogadores que desejam vir para o Fluminense, que venham pelo orgulho de vestir a camisa.

Na entrevista, Autuori detalhou também seu trabalho dentro do Flu, falou da realidade do clube, foi abordado sobre temas delicados, sobre reforços e expôs seu pensamento sobre futebol.

 

Confira a entrevista completa:

Você está há dois meses e meio como diretor esportivo de futebol do Flu. Faça um balanço deste período e fale dos desafios que encontrou.

Eu gosto de fazer balanço ao final de um ciclo, nós estamos iniciando este ciclo. Nós queremos construir uma equipe competitiva. Em um calendário como o Brasileiro, jogar é muito fácil. Competir é diferente. Você não consegue competir se não estiver muito forte e tiver um mínimo de homogeneidade em termos técnicos dentro do grupo. Por isso essa oscilação que ocorre na maioria das equipes brasileiras, mesmo as que possuem condições econômicas de bancar a vinda de jogadores com contratações.

 

Flu no mercado

Neste momento, não temos condições de ir ao mercado e contratar jogadores da maneira que gostaríamos de fazer. Jamais vamos deixar de colocar isso como realidade. O Fluminense conseguiu equilibrar algumas coisas que não eram tratadas como prioridade, que é ter condições de honrar seus compromissos, e isso gerar uma paz em todo o departamento - não falo apenas de jogadores, mas de funcionários também.

Não queremos entrar naquele ciclo vicioso que é o futebol brasileiro, que começa bem, daqui a pouco cede à pressão de torcida, de imprensa por jogadores, se contrata jogadores sem poder pagar, e aí desequilibra tudo, alguns jogadores recebem, outros não… É isso que acontecia no passado no Fluminense.

 

O que fazer?

Temos que tratar o clube como instituição. Não é entrar um patrocinador, bancar tudo, ter resultados, títulos, divisão de grupo - porque alguns pertencem ao patrocinador, outros não - e depois sair sem fazer nada de positivo.

O Fluminense hoje tem que resgatar a capacidade do clube de investir como instituição. Os jogadores têm que vir para cá por saberem que há uma instituição forte, e o Flu é uma instituição vitoriosa, histórica e de excelência por natureza, mas que perdeu essa capacidade e precisa se reencontrar com isso. Aqueles jogadores que desejam vir para o Fluminense, que venham pelo orgulho de vestir a camisa.

Para isso o clube tem que se reestruturar, tem que melhorar a infraestrutura, ter tecnologia de ponta para apoiar as práticas do futebol. E há uma defasagem muito grande na realidade hoje do Fluminense para outras instituições. Isso que precisamos trabalhar e muito. Mas quero deixar claro que a qualidade de recursos humanos do departamento de futebol é enorme. Mas esses profissionais precisam rentabilizar todo esse conhecimento apoiado em infraestrutura, organização e tecnologia. É isso que precisamos trabalhar no clube.

 

O que te fez aceitar o convite do Flu? Chegou a pensar duas vezes?

Primeiro gostaria de falar do Alexandre Torres. Uma figura extraordinária como profissional e como pessoa, que desenvolveu o trabalho mesmo com as dificuldades que o clube tem. Estou apenas a dar sequência a esse trabalho, com uma abrangência um pouco diferente, como o presidente me pediu, mas jamais vou deixar de citar o que todas as pessoas envolvidas aqui dizem, de sua capacidade, de sua personalidade e da grande pessoa que é.

Quando esse convite foi feito, eu tinha outras hipóteses, não só para esta função, mas também para treinador fora do Brasil. E mesmo para dentro do Brasil tive alguns convites que apareceram e aparecem. Eu aceitei porque vi as ideias muito claras em termos de gestão, de governança e, acima de tudo, aquilo que desejam para o futebol. E é nisso que tento dar minha contribuição.

 

Como é seu trabalho no dia a dia?

Meu trabalho do dia a dia é implementar práticas que estejam mais em consonância com o momento atual do futebol, já que no campo o Abel faz as coisas muito bem. É fazer que nossa visão seja única. Não dá para trabalhar isoladamente as partes. É pensar como um todo. É fazer com que todas as atividades-fim, aquelas ligadas ao campo, e as atividades-meio, aquelas que ocorrem no campo, falem a mesma língua, trabalhem de forma interativa, e entendendo que todos são úteis e importantes, e que temos um líder (Abel) e um primeiro time do Fluminense, que é a ponta do iceberg, e que determina os caminhos pelos quais o clube tem que seguir.

 

Missão de tirar sobrecarga de Abel

A liderança, fortíssima, é do Abel. E temos que proporcionar condições para que ele possa rentabilizar todo o conhecimento, toda história que tem no futebol em trabalho para a equipe. E que se preocupe somente com isso. As outras coisas deixa a gente resolver, para que ele vá para os treinamentos e para os jogos completamente tranquilo com aquilo que não está diretamente ligado a ele e gere desgaste a ele, como estava acontecendo.

 

Você e Abel são amigos de longa data...

Minha amizade com o Abel já é de longa data, como ele mesmo frisou. Embora distanciados em razão do trabalho de cada um, a amizade sempre foi presente. E hoje, ao trabalharmos juntos, a solidificamos. Está sendo maravilhoso, muito prazeroso. As pessoas têm que entender isso: é um treinador acostumado a títulos, vitorioso por natureza, acostumado a trabalhar com jogadores de alto nível, de nome, visibilidade, e se propôs, desde o ano passado, a trabalhar dentro da realidade do Fluminense. É muita parceria. Difícil você ver isso entre um clube e um treinador.

 

O que te fez deixar de ser treinador?

Meu problema no Brasil como técnico é sentir que técnico não consegue trabalhar. Você não tem tempo para treinar, não tem tempo de desenvolver suas ideias nos treinos e passar para os jogos. Cada vez mais é papo e recuperar jogador. Essa é a realidade nua e crua. O que lamento é que no mundo do futebol não pensem de uma forma única - é um criticando o outro de forma isolada. Não há uma visão sistêmica. Já tenho um tempo nisso. A cada dia que passo, eu vejo a falta de perspectiva do futebol brasileiro como um todo.

 

Situação do futebol brasileiro influi?

Por mais que você queira resgatar, falar do passado, não tem mais espaço para os campeonatos estaduais da maneira que são disputados. A média de público é ridícula. Eu saí do futebol carioca, voltei e os problemas são os mesmos. Falta de estádio, falta de público, profissionais são ignorados, jogos tarde, crianças não podem ir aos estádios devido aos horários… Não dá, são jogos todos os dias, quem tem poder aquisitivo para isso? A violência que temos aí… Então é inexorável o fim dos campeonatos estaduais. Estamos perdendo tempo e postergando isso. E ao perder tempo estamos deixando de crescer e ficar mais próximos do que estão fazendo no futebol como um todo. Não dá para falar de futebol apenas como um jogo, é muito mais do que isso. Aquele 7 a 1 não representava a distância que existe do futebol europeu com a gente aqui, onde só se pensa no jogo. Enquanto não tiver ninguém olhando para isso... Eles querem é manter o status quo. As federações são filhotes da CBF.

 

É definitivo ou voltaria algum dia a trabalhar como treinador?

Aqui no Brasil, acho difícil. Pretendo continuar cumprindo o que disse. A minha não permanência no Atlético-PR foi porque o presidente Petraglia me convidou a voltar a ser técnico, queria que eu ficasse até o fim do mandato, no fim de 2019. E eu não podia ir contra aquilo que eu havia falado. O que mais cobro no futebol como um todo é quando você não respalda suas palavras com atitudes. Não queria entrar nessa ciranda de ser um dia técnico, aí volto para gestor, volto para técnico. Construí uma carreira como técnico, gostaria de construir outra nesta função nova. Já para fora, é muito provável que eu volte a trabalhar (como técnico), pois tenho tido sempre - não sei até quando - muitos convites para ir para fora.

 

Recebeu muitos convites?

Vários, desde que assumi aqui.

 

No Brasil também?

Sim. Não só para técnico, mas para a função que exerço.

 

Pode falar os clubes?

Não tem por quê.

 

Por que você faz questão de não se envolver em negociações?

Tenho tocado muito na tecla de não me encararem como diretor executivo. Cada vez mais se canaliza as possibilidades de contratações apenas no diretor executivo. Na minha perspectiva, isso é muito pouco. Eu me afasto disso. Deixo claro que não entro em negociações. Entro na construção de tudo aquilo que tem a ver com futebol. E jogadores que vêm e que saem. Especialmente, tentando proporcionar ao Abel, em termos de nomes de jogadores que venham, aquilo que ele deseja.

Eu já fazia isso no Atlético-PR quando fui convidado, falei ao Petraglia: “Entro para gerir, mas minha parte é técnica”. Eu não entro em negociações porque eu não gosto, não sou forte nisso. Cada um tem que entender onde pode contribuir. Há muita suspeição em relação a isso. Meu negócio é a parte técnica, é como gerir o departamento de futebol, poder sentar com o Abel e com treinadores com os quais possa vir a trabalhar e entender suas dificuldades, necessidades e anseios, pois vivi isso… Proporcionar a eles tudo aquilo que gostaria que tivesse proporcionado a mim, e não agir da forma amadorística que normalmente aqueles que não passaram por essas atividades-fim, como passei, normalmente agem.

 

E quem toca as negociações no Fluminense?

Nas negociações eu entro na construção delas, nos contatos com as pessoas envolvidas. Mas a ponta final é parte do negociador. E acho que todo clube deveria ter isso, um departamento de negócios, que tenha a ver com a capacidade de negociar, com o departamento jurídico, com o financeiro… Hoje não dá mais para estes segmentos trabalharem de forma isolada. As partes têm que interagir. Estamos trabalhando de forma interativa, é muito mais que multidisciplinar, é interdisciplinar - as partes estão interagindo entre elas.

 

Em uma coletiva, o Abel disse que “o atacante que eu quero o Autuori sabe quem é”. Há negociação com esse atacante, houve e não deu certo? Você poderia dizer quem é? (nota da redação - na coletiva pós-jogo contra o Vasco, depois da entrevista com Autuori ser realizada, Abel Braga revelou que desejava Gilberto ou Kayke)

Não vou citar nomes. Nós tentamos alguns nomes há algum tempo. Aquele nome que ele talvez estivesse a se referir não houve condições de vir. Temos alguns filtros que são importantes e o principal - que é difícil de conciliar - são: qualidade do jogador que o Abel deseja com valores. Hoje nós temos muita dificuldade de ter disponibilidade financeira para poder ir no mercado e trazer aquele jogador que nós gostaríamos. Muito fácil falar “vamos ser criativos”. Mas como ser? Temos que estar antenados, fuçando, para ver aquilo que é possível trazer. Mas não é fácil. Não sou vendedor de ilusões. Não vou falar coisas para agradar e ser simpático. Meu papel é ser pragmático, realista, e trabalhar com aquilo que é nossa realidade, fazendo que o clube tenha estabilidade e possa ter condições reais de ir no mercado e buscar gente que se deseje trazer.

 

Muitos nomes de centroavantes foram ventilados no Flu…

Uma coisa que não aceito é essa possibilidade dos próprios agentes plantarem nomes. Há uma preocupação muito grande de se jogar na outra ponta, que não corresponde com a realidade. Eu não aceito isso, de maneira nenhuma. Nós temos que saber o que nós queremos. Apareceram muitos nomes. Foram nomes jogados aí. Esse é o grande problema. As pessoas jogam os nomes e dão aquilo como certo. Criam uma expectativa na torcida, e depois o jogador não vem porque nunca foi trabalhado sua vinda e põem como fracasso a negociação. E as pessoas adoram rotular. Não é essa a ideia. Não vamos entrar em nomes, seremos muito rigorosos na privacidade.

 

O Fluminense está em busca de oportunidades de mercado. O Conca, que rescindiu na China, seria uma oportunidade de mercado? Em uma enquete do GloboEsporte.com, metade da torcida aprovou um possível retorno. É um nome que avaliaram ou a condição física dele é um impeditivo?

É um grande profissional. Falar da condição dele seria absurdo. Ao longo de minha carreira, jamais teci comentários sobre nenhum jogador em relação a isso. Vejo as coisas de maneira geral, dentro da necessidade que se tem, independentemente do que foi no passado e o que possa vir a ser no futuro. O importante é trabalhar para proporcionar ao Abel aquilo que ele realmente deseja e vê como necessário.

 

Em entrevista ao GloboEsporte.com, Marquinho, um dos jogadores dispensados no fim do ano, disse o seguinte: “Teve outra coisa que me entristeceu. Nunca trabalhei com o Paulo Autuori (diretor executivo esportivo). Mas sempre ouvi falar muito bem dele. Na minha visão, ele chegou acreditando nas pessoas erradas. Eu vi uma entrevista dele, na qual ele afirma que todos os atletas tinham sido avisados antes da nota oficial. E isso não é verdade, não aconteceu. Isso mostra como é o bastidor do Fluminense. Alguém deve ter falado, e o Paulo acreditou. Ele colocou o nome dele em jogo. Um dia vou encontrar com ele e falar o que aconteceu”

O que você tem a dizer sobre isso?

Marquinho é um grande jogador. Quem sabe um dia possamos trabalhar juntos. Eu não botei meu nome em jogo. Eu botei minha carreira em jogo quando afirmei da lisura, da honradez, da decência, da transparência do presidente. Cometer erros, todos cometem. Quando essas ações foram determinadas eu nem estava ainda contratado. Mas participei no momento em que foi falado e as pessoas foram avisadas sim. Se o agente não foi porque não foi localizado é uma outra situação. Não posso falar, até porque não participei disso. Mas eu não costumo acreditar em pessoas erradas não. Até porque acho que as coisas são facilmente comprováveis.

 

Então você não participou da decisão desta lista de dispensa?

Isso já estava basicamente definido. Eu entrei e a coisa foi comunicada. Houve um processo. Eu sei que naquele dia e no dia seguinte foram avisados e contatados todos os jogadores. A maneira que foi ou deixou de ser eu não sei, porque não participei. Mas a ideia é que todos fossem avisados. Alguns podem não ter sido no mesmo dia, ou foram eles ou seus agentes. Isso tenho certeza. Posso dizer ao Marquinho que sou rigoroso nas pessoas com as quais confio e botei há tempo minha carreira em jogo se não soubesse com quem estou a lidar. Até porque se tivesse alguma dúvida não estaria aqui, poderia estar em uma situação muito mais confortável. Mas aqui estou em razão das dificuldades. E é isso que se precisa, pessoas que tenham história e acreditam nas dificuldades. Querer só o bom é fácil, querer estar só onde tem as coisas é fácil.

 

Sobre a questão de você ter dito que poderia deixar o clube caso os salários não fossem pagos. Como foi esta situação?

Eu não aceitei o convite do Flu de um dia para o outro. Foi uma construção demorada. Valores nem estiveram envolvidos. Foi com relação a quais seriam minhas funções, minha alçada, onde estaria envolvido, aquilo que acredito de futebol. Foi por isso que as coisas demandaram um pouco de tempo. Eu dei o exemplo do que havia acontecido em um clube coirmão, onde eu estava muito bem, grupo com ótimas condições de relacionamento, mas que ao me prometerem uma coisa, que passei para os jogadores, e não ser cumprida, eu tomei a decisão que tinha prometido aos jogadores. Eu tento - e vou continuar até meu último dia de vida - ser coerente e gerar uma credibilidade. Construí em 43 anos de futebol. É uma exigência, um desafio que tenho comigo. E não vou jogar fora de uma hora para outra.

Eu coloquei essa questão para o presidente Abad. Disse “aconteceu isso e gostaria que não acontecesse de novo”. Porque se acontecesse de novo eu tomaria a mesma decisão - ou seja, vou cumprir com minha palavra. Foi o que fiz no Atlético-PR. Eu falei que não voltaria a ser técnico lá. Talvez seria aceitável dizer sim ao convite na época, voltar a ser treinador e estar em um clube que oferece condições extraordinárias de trabalho. Mas para cumprir aquilo que eu tinha dito a mim mesmo, não voltei a ser técnico. Cumpri minha palavra, me sacrifiquei e não permaneci. E não ia aceitar que isso acontecesse aqui. Passei para os jogadores o que a direção iria fazer, conversamos todos os dias. E se não acontecesse eu tomaria a mesma atitude que tomei as outras vezes. Foi isso. Eu não disse que iria embora em nenhum momento. Eu disse que se não houvesse a possibilidade de se cumprir aquilo que havia sido prometido eu estaria fora, porque eu não vou contra toda uma carreira que construí apoiada em valores morais e princípios, que são inegociáveis.

 

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Plinio - 08/03/2018 às 19h04
Blá-blá-blá
Precisamos de um Centro no lugar do Fraco Pedro e outro armador pra jogar com Sornoza
Roda presa, vai afundar o meu Fluminense
Responder
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