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Debate • Por Caio Blois e Hector Werlang - GloboEsporte.com – Foto: Reprodução • 09 jul 2018
Pressão por impeachment e oposição crescente: Abad vive pior crise no Conselho

Pedro Abad enfrenta a pior crise política de sua gestão no Fluminense. Uma sequência de acontecimentos e decisões questionadas por parte da torcida e pela totalidade da oposição - que vê na turbulência a chance de viabilizar o impeachment - criaram um ambiente de dificuldade para o presidente no Conselho Deliberativo.

Com um cenário de forças cada vez mais divididas entre os conselheiros e de protestos dos torcedores, o ambiente nas Laranjeiras é de total instabilidade. Algo raro em relação aos últimos anos.

O Tricolor não viveu dias de paz nem na pausa para a Copa do Mundo: Abel Braga, uma das poucas unanimidades da gestão Abad, pediu demissão. O Flu contratou Marcelo Oliveira, mas a pressão por mudanças só aumentou. Um grupo de conselheiros ultrapassou o número de 50 assinaturas necessárias - definidas pelo estatuto do clube - para abrir o processo de impeachment do presidente. E, na primeira reunião do Conselho Deliberativo, após este fato, um grupo de torcedores tentou invadir a sede social do clube pela terceira vez no ano, exatamente no momento em que o presidente discursava para os conselheiros no púlpito do Salão Nobre.

O número de conselheiros oposicionistas aumentou com a saída do grupo político Unido e Forte e com a criação do grupo político Pró-Flu, este formado por ex-integrantes da Flusócio. Atualmente, esses dois segmentos representam pouco menos da metade das cadeiras do Conselho. A oposição alegou gestão temerária de Pedro Abad e o acusou de causar prejuízo ao clube no documento de impeachment, como mostrado pelo GloboEsporte.com.

 

Conselho dividido no processo de impeachment

Abad enfrentou instabilidade no episódio da saída do Unido e Forte de sua gestão. A debandada dos cinco vice-presidentes da coalizão inflamou de vez a oposição, ao passo que seu grupo, a Flusócio, viu minguar o número de conselheiros e precisou fazer novas alianças para se manter como maioria.

Conforme apuração do GloboEsporte.com, o mandatário e a Flusócio conseguiram apoio da Democracia Tricolor, grupo responsável pela eleição de Gil Carneiro de Mendonça como presidente do clube em 1996.

Ao mesmo tempo, uma nova oposição ganhou força no clube com a união entre o grupo Pró-Flu, o Unido e Forte, antigos opositores e uma parte do bloco independente. A primeira vitória veio no pleito do próprio Conselho Deliberativo, com a eleição de Fernando César Leite, candidato único e conselheiro que se define como independente. Apoiado pelo grupo.

- A diferença entre o pessoal da Vanguarda - onde alguns líderes são da Unido e Forte - e dos Esportes Olímpicos é histórica. O Fernando conseguiu unir os dois, ser candidato único. A pauta era diferente do que está agora, mais progressista. Ele defendia a reforma estatutária, uma coisa que uniria o Conselho em prol do clube. Mas desde que ele assumiu não houve nenhuma deliberação - reclamou José Roberto Nunes Pires, conselheiro eleito pela Flusócio, porém, atualmente independente.

Há uma divisão cada vez mais latente no Conselho Deliberativo. A Flusócio nunca dependeu tanto dos grupos de apoio, como o tradicional aliado Esportes Olímpicos e a Democracia Tricolor. Já a oposição cresceu e pressiona para que outras pessoas mudem de lado.

- O Conselho está mais dividido, é claro. A saída do Unido e Forte representou uma grande mudança no quadro. Não podia ser diferente. Desde que o presidente cedeu ingressos para organizadas até as decisões centralizadas que viraram erros crassos na condução das rescisões e dos casos Diego Souza e Gustavo Scarpa, ambos gerando enorme prejuízo ao clube, ele perdeu a credibilidade. Ele ainda tem seus apoios, mas não sabemos até quando os Esportes Olímpicos andarão com a Flusócio - disse o conselheiro Antonio Gonzalez, um dos líderes do grupo Unido e Forte.

 

Mudança na oposição: de propositiva à agressiva

Se antes o processo de impeachment era descartado pelos novos opositores, a negativa de Pedro Abad a uma eventual renúncia fez o grupo partir para o ataque. A oposição, antes propositiva e no passado integrante da gestão, virou combativa. E agressiva no Conselho Deliberativo. Ao alegar não ter protocolado o pedido de impeachment por desejar ter mais assinaturas, deseja também desgastar o presidente com a manutenção do assunto em pauta.

- Protestei por um ano e meio estando na Flusócio. Agora, penso que o melhor seria que ele (Abad) renunciasse. Seria melhor para ele. É uma boa pessoa. Mas... essa posição dele de que “eu sou o presidente e quem manda sou eu” o levou a fazer grandes bobagens. A questão de dar ingresso às organizadas surpreendeu a todos da Flusócio, ninguém sabia. Ele abandonou o grupo dele. As críticas internas passaram a ser enormes. E, a partir daquele caso, tivemos outros erros da gestão. Foram decisões monocráticas. O caso Scarpa, Diego Souza, as rescisões dos jogadores, a questão financeira - opinou Walcyr Borges, um dos líderes do grupo Pró-Flu, ex-Flusócio, e atualmente contra a gestão.

A nova oposição passou, então, a pressionar a gestão. Quatro requerimentos de convocação de funcionários e dirigentes foram entregues a Fernando César Leite.

Além do próprio Abad, Marcelo Teixeira (diretor da base), Marcus Vinicius Freire (ex-CEO do clube), Rogério Romano (responsável pela área social), Lawrence Magrath (diretor de marketing) e Fernando Simone (assessor especial da presidência) tiveram suas presenças requisitadas pelos conselheiros para dar explicações. Ainda há mais uma, que foi adiada, de Ronaldo Barcellos, vice-presidente comercial do clube.

- Desde que ele (Fernando César Leite) assumiu não houve nenhuma deliberação. O Conselho aprova requerimentos da nova oposição para constranger a gestão. Há conselheiros com medo, ninguém quer ir para ser intimidado com rojões e fogos - declarou José Roberto Nunes Pires.

 

Situação vê parcialidade em presidente do Conselho Deliberativo

As mudanças no comportamento da oposição fizeram com que a situação passasse a questionar o presidente do Conselho Deliberativo, Fernando César Leite. O clima hostil no clube, alegam os conselheiros alinhados com a gestão, é uma criatividade política para desgastar e desestabilizar Pedro Abad.

- O clima de guerra no Conselho Deliberativo não ajuda em nada o Fluminense. Esses requerimentos servem apenas para tumultuar o ambiente e, na verdade, é essa a intenção dos que o apresentam. O próprio pedido de impeachment é um ato político para desgastar a imagem do presidente e tornar o clima insustentável. Mesmo os que assinaram não acreditam na possibilidade do impeachment. Enquanto isso assuntos mais importantes, como a reforma do estatuto, vão ficando esquecidos. O que o Fluminense precisa é de união, e o Abad está disposto a conversar com todas correntes políticas - afirmou Fabiano Bettoni, da Flusócio.

Além disso, os situacionistas acreditam que as discussões se tornaram mais estéreis e que Fernando César Leite escolheu um lado nos debates, aumentando a pressão sobre Pedro Abad. Alegam ainda que os requerimentos são assinados sempre pelo mesmo grupo de conselheiros.

- Ele (Fernando) está sendo parcial. Só há reuniões com base em requerimentos. Ele não é obrigado a aceitar. Houve até convocação de funcionários, o que expõe as pessoas e pode gerar processo judicial contra o clube. A proposta de reforma estatutária nunca foi levada ao plenário. Foi promessa do Fernando na época da candidatura, mas está parada, não foi deliberada. O Conselho Deliberativo até hoje não deu parecer sobre as contas (de 2017), que não foram julgadas e não há posição do presidente. O Conselho Fiscal aprovou as polêmicas contas do último ano do Peter (Siemsen, ex-presidente) e até agora não deu parecer - criticou José Roberto, conselheiro independente que apoia a gestão.

Procurado pela reportagem, Leite se defendeu das críticas e usou o estatuto para explicar sua postura. O presidente do Conselho Deliberativo admitiu a dificuldade de união, mas rechaçou estar se pautando pela política do clube.

- A parte política não me incomoda. Não me meto nas discussões nem participo de grupo político, sou independente. Minha atuação é neutra, pauto o Conselho no cumprimento do estatuto. Não participei da união dos grupos para a chapa que elegeu o presidente. Havia a expectativa de pacificar o clube, mas infelizmente não aconteceu. Hoje é óbvio que existe um racha no clube. Basta 30 conselheiros assinarem um requerimento e sou obrigado a convocar reunião. Não vejo como forma de tumultuar. O Conselho Deliberativo tem direito de saber o que está acontecendo - declarou.

 

Da arquibancada para a rua: insatisfação de parte da torcida vira protesto

Na vitória ou na derrota, Pedro Abad costuma ser xingado pela torcida antes, durante e depois das partidas. A insatisfação se explica por promessas não cumpridas da época da campanha e dificuldades no futebol. A diferença é que as críticas cresceram a ponto de virarem protestos.

Em janeiro, um grupo de torcedores invadiu o clube durante uma reunião do Conselho Deliberativo. Gritando palavras de ordem, contrárias ao mandatário, os manifestantes encheram o segundo andar do Salão Nobre para protestar de maneira pacífica, mas intimidadora.

Já em junho, novo protesto: torcedores foram às Laranjeiras em reunião do Conselho e colaram papéis na fachada do clube pedindo a renúncia de Pedro Abad. Utilizaram bombas e fogos, e a sessão foi adiada. Na data remarcada, em julho, mais uma tentativa de invasão, desta vez com violência, na porta da sede social - bombas foram jogadas, lixeiras queimadas e vidros da sede quebrados. Com a ajuda da Polícia Militar, o Flu impediu a ação dos manifestantes e, no dia seguinte, encaminhou denúncia ao Ministério Público.

Para alguns conselheiros, a reação da torcida é normal devido aos problemas enfrentados pelo Fluminense em 2018. A reprovação do torcedor a Pedro Abad, de acordo com Eduardo Mitke, um dos líderes da oposição desde a eleição, é o grande motivo.

- O maior patrimônio do clube é o seu torcedor. Eu apenas sou contra depredar o clube, porque aí se perde a razão, causa prejuízo, mas não sendo assim, sou a favor. A pressão está sobre o Conselho por conta do impeachment, porque acredita-se que é o melhor caminho. Fora do clube, o Abad tem aprovação menor que a do (Michel) Temer - declarou Mitke, conselheiro e membro do grupo Tricolor de Coração.

Conselheiro e membro da Flusócio, Fabiano Bettoni defende o direito do torcedor em se manifestar. Ele diz acreditar que é difícil para o presidente do Conselho controlar as ações.

- O torcedor tem o direito de se manifestar, de protestar. É sabido que haverá mais. Alguns conselheiros inflamam isso. O último começou bem no momento que o presidente abriu o discurso. É comandado de dentro para fora. Mas é difícil de ser controlado pelo presidente do Conselho. O que ele pode fazer é fechar uma reunião se achar que não há segurança, mas isso não é garantia de que não haverá protesto. É justo e válido protestar - declarou Bettoni.

Para Walcyr Borges, egresso da Flusócio e um dos líderes do grupo Pró-Flu, Abad já perdeu as condições políticas para estar à frente do clube.

- Não dá para um presidente ter 90% da torcida contra. Qual o projeto para 2018? Não se tem. É tudo na base do espasmo. Ele perdeu as condições políticas, o presidente perdeu o protagonismo do cargo. E não dá para esquecer que a campanha teve um discurso diferente da realidade. Não dá mais. Por isso, assinei o requerimento pelo impeachment - sintetizou.

Um dos líderes da Fluminense Unido e Forte no Conselho Deliberativo, Antonio Gonzalez rechaçou que os protestos dos torcedores tenham cunho político e sejam convocados e apoiados pela oposição. O conselheiro alegou que o grupo fez o possível para que a torcida se aproximasse da gestão, mas que a falta de credibilidade de Abad impediu.

- Alguns membros da Flusócio tentaram colocar a culpa das manifestações no Fluminense Unido e Forte, em mim. Mas não é verdade. Eu fiz o possível para não ocorrer, mas a torcida não quer andar junto do Abad. A gestão Pedro Abad é a gestão da mentira, e o torcedor está cansado de ser enganado. Era a hora de chamar a torcida para perto, mas o que se pode fazer? Não tem mais como acreditar nele, mas ele e o grupo que o apoia acham que estão no caminho certo. Esperamos que o Flu sofra o menos possível com isso, mas vejo um futuro sombrio pela frente - finalizou Antonio Gonzalez.

 

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