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Artigos • Por José Roberto Padilha • 05 jul 2018
Um elástico para a vida (por José Roberto Padilha)

Depois de passarmos por todas as equipes de base do Fluminense F.C., campeões juvenis e de juniores, treinados por João Baptista Pinheiro, revelados por Zagalo e preparados por Carlos Alberto Parreira, finalmente havia chegado a nossa hora. Todos éramos pratas da casa e o clube se preparava para a temporada de 1975 com uma excursão em fevereiro, pelo eixo Rio-São Paulo. Eu, Edinho, Cléber, Herivelto, Marco Aurélio, Abel Braga, Nielsen Elias e Carlos Alberto Pintinho enfrentamos o Guarani, a Ponte Preta, o XV de Piracicaba e estávamos na ponta dos cascos para estrear no estadual carioca.

No ônibus da volta, em meio à euforia por uma série de bons resultados, lemos no Jornal dos Sports que o Presidente Horta, que ficara no Rio e não nos vira atuar, resolvera montar um supertime. No meu caso, como ponta-esquerda, deu vontade de ficar naquela parada de Itatiaia: contratou os três melhores do país, Rivelino, do Corinthians, Paulo César Cajú, do Olympique de Marselha, e Mário Sérgio, do Vitória. E trouxe o Zé Mário para tomar o lugar do Pintinho. Irritados e inexperientes, voltamos pro banco, que já era conhecido como poltrona, e começamos, em toda a Taça Guanabara, a ironizar todos aqueles que roubaram a nossa oportunidade. Rivellino, então, pela idade, já tricampeão do mundo, não podia errar um só passe. Como ele não errava, implicávamos com o fato de não correr mais para marcar ninguém. Aí veio o jogo contra o Vasco.

Me lembro como se fosse hoje: nós, os jovens corneteiros, sentados no banco do lado direito das tribunas e ele, com a bola dominada, diante do cabeça de área vascaíno, o Alcir. Rivellino parou e o Alcir o encarou, naquele tempo dava para parar a bola e ensaiar uma obra de arte. De tão surreal a cena, por segundos nos calamos também. E o Maracanã emudeceu junto. Num gesto inusitado, conduziu a bola pela parte externa do seu tornozelo em direção à esquerda e, num movimento rápido, com a ponta dos pés, trouxe a bola de volta. Esta, caprichosamente, encontrou um espaço entre as pernas do Alcir. Ainda estupefatos, estádio, corneteiros, Alcir e toda a defesa do Vasco, Rivellino aproveitou o movimento da bola, arrancou para dentro da área, deixou para trás o quarto-zagueiro René, de passagem, e entrou na cara do gol. Pelo lado direito, já ao lado da pequena área, só encontrou o goleiro Andrada fechando 95% do seu lado esquerdo e se preparando para saltar para o lado óbvio, o direito, totalmente escancarado. E Rivellino bateu com sua canhota nos 5% restantes do seu contrapé.

A bola, como um pincel de Renoir, entrou entre seu pé e a trave, e ele saiu para comemorar um dos mais belos gols que o nosso futebol já produziu. Olhamos, os ex-corneteiros, um para o outro, completamente sem graça e tomamos, naquele momento mágico, ao vivo, uma lição para o resto das nossas vidas. Porque ele, Roberto Rivellino, o Reizinho do Parque, que se tornou o Príncipe das Laranjeiras, assumiu o leme das nossas carreiras.

Não teve mais excursão de ônibus para Campinas, entramos no Jumbo da Air France e fomos jogar o Torneio de Paris. Deixamos o Hotel das Paineiras, onde concentrávamos, e fomos inaugurar o 5 estrelas Hotel Nacional, em São Conrado. A vitrine da Rua da Alfândega para a boutique do Barrashopping. Fomos campeões da Taça GB, carioca e nossa equipe entrou para a história como “A Máquina Tricolor”, a original, que foi bi em 1976, ainda com Rivelino, Doval, Edinho e Dirceu. Após os treinos, nos juntávamos num cantinho do gramado e posicionávamos os cones para treinar o elástico, e à noite era a vez de colocar uma cadeira no corredor para tentar, entre suas canelas finas de madeira, já apelidadas de Alcir, repetir aquele gesto mágico. Nos sobrava vontade, mas faltou coragem, pelo menos no meu caso, para executá-lo nas partidas.

Quando deixamos o Fluminense, anos depois, cada um buscando seu destino, aprendemos a respeitar aquele cidadão experiente, que desembarca no seu trabalho, é contratado por sua redação e que não vem mais tomar o seu lugar. Porque ninguém toma o lugar de ninguém. Como Rivellino, os mais sábios, experientes e competentes que assumem nossa repartição, não devem ser subestimados ou questionados pelos aspirantes ao cargo que se julgam a bola da vez. Precisam ser fontes de consultas, sugados seus conhecimentos para que quando a oportunidade surgir estejamos preparados para assumir o nosso espaço, construir uma carreira com dignidade e competência.

Aquele elástico, desferido num sábado à noitinha, há exatos trinta e oito anos, levou o ciúme acumulado e trouxe o orgulho estampado, carregou mágoas, inveja, ressentimentos e trouxe de volta uma magia e respeito que passamos a ter por nossos mestres, nossos ídolos para o resto das nossas vidas. E Rivellino foi para minha geração, ao lado de Gérson e de Zico, um gênio e será para sempre o nosso grande ídolo.

 

CONVITE: Esta crônica está no livro "Futebol: a dor de uma paixão", 3ª ed. revista e ampliada, que terá seu lançamento na próxima segunda-feira, dia 9 de Julho, das 18h00 às 20h00, na Livraria Folha Seca, Rua do Ouvidor, 37, Centro, Rio de Janeiro. Espero vocês.

José Roberto Padilha, o Zé Roberto, foi revelado pela base do Fluminense. Foi campeão do Torneio de Cannes com a Seleção Brasileira Sub-20, em 1971.

Pelo Tricolor conquistou os Campeonatos Cariocas de: 1971, 1973 e 1975

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Jose das Mercês de Souza - Itabira - MG - 09/07/2018 às 17h01
Este jogo aconteceu no dia em que me casei(31.05.1975), assim era óbvio que não pude acompanhá-lo. Só na volta da lua de mel, pude me deliciar com aquele gol maravilhoso. Até hoje agradeço ao Riva a pintura como um belo presente de casamento. Há 43 anos não vi mais ninguém fazer algo semelhante!
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